DON GIOVANNI OU O DISSOLUTO ABSOLVIDO
Jos Sramago
Prmio Nobel

Don Giovanni ou O dissoluto absolvido
Teatro

CAMINHO o Campo da Palavra
DON GIOVANNI OU O DISSOLUTO ABSOLVIDO
Autor: Jos Saramago
Na capa: Francisco d'Andrade no papel de D. Giovanni.
Desenho de Max Slevogt (c) Jos Saramago e Editorial Caminho, SA, Lisboa - 2005 Gnese de um libreto: (c) Teatro alla Scala, Milo, Maro de 2005

Tiragem: 10 000 exemplares
Impresso e acabamento: Tipografia Lousanense, L.da
Data de impresso: Maro de 2005

Depsito legal n 223 035/05

ISBN 972-21-J686-X www.editorial-caminho.pt

Nota do Editor

A pea de teatro de Jos Saramago que agora se apresenta ao leitor tem uma histria que merece ser conhecida. Da a incluso nesta edio, em posfcio, do texto
do programa do Teatro alia Scala relativo  representao da pera Don Giovanni o II Dissoluto Assolto, onde essa histria  relatada. A Editorial Caminho agradece
ao Teatro alia Scala e  autora do texto, Graziella Seminara, as facilidades concedidas para a sua reproduo e a Mrio Vieira de Carvalho a traduo do original
italiano para portugus.


A Pilar, meu pilar

Nem tudo  o que parece. Provrbio
Primeiro, por causa do Golem, depois, muito depois, por causa de Kafka, sempre imaginei a cidade de Praga a preto e branco. Ao Golem, refiro-me ao filme de Paul 
Wegener, no ao livro de Gustav Meyrink, que nunca tive a pacincia de ler at ao fim, devo t-lo visto a por 1929, quando nem sete anos havia cumprido ainda. Fui, 
como se v, um cinfilo dos mais precoces. A esse Golem de tosco barro e a outras parecidas assombraes do animatgrafo (dizia-se ento assim) ficaria eu a dever 
os pesadelos mais horrveis da minha infncia. O abalo foi tal que me curou deles para todo o resto da vida. A leitura do Processo e do Castelo veio muito mais tarde 
e no fez seno confirmar que aquela cidade onde o rabino Loew havia modelado o Golem por sua mo, quer quisesse, quer no, era mesmo a preto e branco.
At que chegou o dia em que fui ver Praga com os meus prprios olhos. Afinal, no era a preto e branco.  certo

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que o palcio fortificado de Hradcany podia muito bem ser aquele castelo aonde o agrimensor K. nunca conseguiu que o chamassem,  certo que pelos seus sombrios corredores 
poderiam ter retumbado os passos pesados do homem de barro, mas a cidade, c fora, era colorida, ntida, precisa como uma gravura a buril, boa para passear. Passeei 
portanto. E eis que a prestante pessoa que me servia de guia diz. em certa altura: "Agora vou lev-lo ao teatro onde se estreou o Don Giovanni de Mozart." No exagero 
nada se digo que o corao me deu um salto dentro do peito. Se h uma pera no mundo capaz de pr-me de joelhos, rendido, submetido,  esta. Tinha-me esquecido, 
ou no lhe dera suficiente ateno se alguma vez o li, que Don Giovanni havia visto a luz da ribalta em Praga. E ali estava o edifcio, o Stndetheater, com as suas 
colunas corntias ornamentando uma fachada que nem assim alcanara a monumentalidade que o arquitecto devia ter tido em mente. Por aquela porta, num dia do ano da 
graa de 1787, entrou Wolfgang Amadeus Mozart com a partitura do seu Don Giovanni ossia Il dissoluto punito debaixo do brao para fazer ouvir  gente de Praga a 
msica de cena mais sublime que alguma vez havia sido composta. E ali estava eu, com o pulso agitado e as mos trmulas, rodeado de sculo XX por todos os lados, 
menos por aquele, desejando uma mquina de viajar no tempo para desandar num instante os quase duzentos anos que me separavam daquele momento, e sabendo, que remdio 
seno sab-lo, que nem o tempo nem os rios podem voltar para trs. Dava-se uma outra pera de Mozart (no recordo qual), mas no havia na bilheteira nem uma s entrada 
para os dias seguintes. Quando os houvesse j eu no estaria em Praga, e a mim nada mais poderia interessar-me que Don Giovanni.

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Vim ouvi-lo em casa. Tinha-o escutado vrias vezes, escutei-o depois no sei quantas, estou a ouvi-lo uma vez mais enquanto escrevo este prlogo  pea teatral que 
vai adiante, destinada a servir de fundamento dramtico ao libreto de uma pera de Azio Corghi a que pusemos, ele e eu, o ttulo de Don Giovanni ou O dissoluto absolvido. 
Porqu absolvido, no fim se conhecer. Fica por decidir se o autor do texto tambm vir a beneficiar de Uma absolvio, ele que se atreveu a criar o seu prprio 
Don Giovanni, depois de Tirso de Molina, Cicognini, Giliberto, Dorimon, Villiers, Molire, Rosimond, Shadwell, Zamora, Goldoni, Lorenzo da Ponte, Byron, Espronceda, 
Hoffinann, Zorrilla, Pushkine, Dumas, Mrime, e no sei quantos mais. Em meu abono, seja o dilecto amigo Azio Corghi minha boa e leal testemunha, apresentarei as 
provas da resistncia que desde o primeiro momento opus ao convite. Comecei por argumentar que sobre as malas-artes de Don Giovanni tudo havia sido dito, que no 
valia repetir o que outros j tinham feito melhor, que qualquer coisa que escrevesse seria o mesmo que chover no molhado, etc... Era certo que sempre havia pensado 
que Don Giovanni no podia ser to mau como o andavam a pintar desde Tirso de Molina, nem Dona Ana e Dona Elvira to inocentes criaturas, sem falar do Comendador, 
puro retrato de uma honra social ofendida, nem de um Don Octvio que mal consegue disfarar a cobardia sob as maviosas tiradas que no texto de Lorenzo da Ponte vai 
debitando. Azio Corghi insistiu, insistiu, e ento, em desespero de causa, atrado pelo desafio, mas ao mesmo tempo intimidado pela responsabilidade da empresa, 
disse-lhe que se me ocorresse uma ideia, uma ideia boa, o intentaria. Passou o tempo, meses, Azio perguntando, e finalmente a ideia surgiu. Sus-

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peito agora de que no ser to boa quanto ao princpio me tinha parecido, mas o resultado a est. O pano j pode subir. Faltar a msica, que  sempre o melhor 
de tudo. Oxal o leitor possa escutar, chegando bem o ouvido  pgina, aquela outra msica que as palavras tm e que estas talvez no tenham perdido por completo.
Jos Saramago

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Prlogo

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Leporello e um manequim feminino que representa Dona Elvira.
Dona Elvira
Il scellerato M'ingann, mi tradi!
Leporello
Eh consolatevi;
Non siete voi, non foste, e non sarete
N la prima, ne l'ultima; guardate!
Questo non picciol libro  tutto pieno
Dei nomi di sue belle;
Ogni villa, ogni borgo, ogni paese  testimon di sue donnesche imprese.

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Dona Elvira
Tambm est a o meu nome?
Leporello
Com todas as letras, sucessos e circunstncias.
Dona Elvira
Que horror! O teu patro, alm de traidor,  vaidoso, alm de leviano,  indiscreto.
Leporello
E um homem, nasceu com defeitos de homem e gostou deles.
Dona Elvira
Dou-te dinheiro se me deixares arrancar a folha onde est escrito o meu nome.
Leporello No posso.
Dona Elvira Porqu?
Leporello
Porque nessa folha esto escritos os nomes doutras mulheres. Se cobrasse de uma, teria de cobrar de todas.

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E v l saber-se por onde andaro elas nesta altura! O mais provvel  estarem todas casadas... Os maridos no ficariam nada contentes.
Dona Elvira 
Descarado!
Leporello
Tambm nasceu com esse defeito, sim senhora.
Dona Elvira
 de ti que estou a falar, no de Don Giovanni.
Leporello
A cada um o seu papel. Aos criados mandam-nos que sejamos descarados, medrosos e cobardes. No podemos ser outra coisa.
Dona Elvira
D-me esse livro.
Leporello
Sou um co de guarda fiel, senhora. Descarado, medroso, cobarde, mas fiel.
Dona Elvira
Se eu fosse homem arrancar-to-ia das mos agora mesmo.

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Leporello
Em tal caso o seu nome no estaria escrito aqui. No livro s h nomes de mulheres.
Dona Elvira
Insolente! Que o cu te castigue!
Leporello Assim seja.
Dona Elvira
Vou-me embora.
Leporello
No v, senhora. Deixe que lhe explique melhor o que est no livro.
Dona Elvira 
No quero.
Leporello
Tem medo de sentir cimes?
Dona Elvira 
No.

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LEPORELLO
Ou sim?
Dona Elvira
No. Talvez. Sim.
Leporello
S h uma maneira de sair dessa dvida. Escute.
Madamina, il catalogo  questo Delle belle che am il padron mio. Un catalogo egli  che ho fatt'io, Osservate, leggete con me.
In Itlia seicento e quaranta, In Lamagna duecento e trent'una Cento in Francia, in Turchia novant'una, Ma in Ispagna son gi mille e tre.
Dona Elvira
E eu, pobre de mim, sou uma delas.
Leporello
Vhan fra queste contadine, Cameriere e cittadine, Vhan contesse, baronesse, Marchesane, principesse, E v'han donne d'ogni grado, D'ogni forma, d'ogni et.

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Dona Elvira
Todas lhe servem a esse monstro promscuo!
Leporello
In Itlia seicento e quaranta, ecc.
Nella bionda egli ha l'usanza Di Iodar la gentilezza, Nella bruna la costanza, Nella bianca la dolcezza.
Vuol d'inverno la grassotta, Vuol d'estate la magrotta; E la grande maestosa, La piccina  ognor vezzosa...
Delle vecchie fa conquista Per piacer di porle en lista; Ma passion predominante E la giovin principiante.
Dona Elvira
Como eu, que lhe dei a minha virgindade.
Leporello
Non si picca se sia ricca. Se sia brutta, se sia bella: Purch porti la gonnella, Voi sapete quel che fa.
(Sai.)

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Dona Elvira
In questa forma, dunque,
Mi tradi il scellerato! E questo il prmio
Che quel brbaro rende ali'amor mio?
Ah, vendicar vogli'io
L'ingannato mio cor: pria ch'ei mi fugga...
Si ricorra... si vada... lo sento in petto
Sol vendetta parlar, rabbia, e dispetto.
(Sai.)

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Cena 1

Don Giovanni, depois o Comendador. Don Giovanni, sentado a uma mesa, folheia o catlogo das suas conquistas amorosas. Deve-se perceber que est dividido entre o 
prazer da recordao e a melancolia do passado. Faz contas num papel.
Don Giovanni
Espanha, Turquia, Frana, Alemanha, Itlia, tudo somado d duas mil e sessenta e cinco mulheres... Quem delas ter sido a primeira? Como se chamava? Seria das louras? 
Seria das morenas? Era alta? Ou era baixa? No consigo recordar-me. Depois de ter duas mil e sessenta e cinco mulheres deitadas, quem seria capaz de se lembrar da 
primeira? Tantas, to poucas, demasiadas. Como poder saber-se? A orgulhosa Dona Ana teria neste livro o nmero dois mil e sessenta e seis, a ingnua Zerlina seria 
a dois

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mil e sessenta e sete, mas as ingratas no me deram tempo, resistiram, gritaram por socorro, obrigaram-me a fugir, a dar confusas e ridculas explicaes. Antigamente 
era mais rpido na conquista, mais veloz no triunfo, mais conclusivo na retirada. E ainda por cima tive de matar o idiota do comendador. Don Giovanni est a fazer-se 
velho.
(Batem  porta com violncia.)
Don Giovanni
Quem chama? Leporello! Leporello! Onde te meteste tu, alma condenada? Vai ver quem est a bater  porta! E diz-lhe que isto  casa de gente, no  porto de quinta 
nem cancela de estrebaria! Leporello! Ah, tinha-me esquecido de que o mandei s compras... (Batem de novo, com mais fora.) Pois que batam at se cansarem, o filho 
do meu pai no veio a este mundo para abrir portas. (Mais pancadas.) Quem ser o grosseiro, o estpido, o mal-educado? (Agarra num basto e vai abrir.) Espera a 
que j te ensino!
Comendador (entrando) Aqui estou.
Don Giovanni
Isso vejo eu, mas custa-me a crer ser verdade o que os olhos me mostram. Uma esttua andante  um prodgio que nunca mais se repetiu desde que o homem foi feito 
de barro.

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Comendador
Convidaste-me a jantar e aqui me tens. Eu prometi que viria, agora  a tua vez. Cumpre a tua palavra, recebe-me  tua mesa e abre-me a tua conscincia.
Don Giovanni
Leporello foi fazer compras  vila e ainda no regressou. Se quiseres esperar que ele volte e nos prepare o jantar, senta-te por a, mas tem cuidado com a cadeira, 
pesas demasiado. Ou ento passa por c outro dia.
Comendador 
O dia  hoje.
Don Giovanni
Como queiras. Mas senta-te, por favor, no gosto de ver ao meu lado pessoas mais altas do que eu.
Comendador
No posso sentar-me.
Don Giovanni 
Porqu?
Comendador
Uma esttua tem de ficar para sempre como a fizeram. A mim fizeram-me em p, por isso no me posso sentar.  uma questo de articulaes.

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Vais estar em p por toda a eternidade? Isso cansar muito, suponho.
Comendador
No sei. A eternidade, para mim, s agora  que comeou.
Don Giovanni
E como foi que vieste at aqui? No deve ter sido fcil, com essas pernas rgidas, tesas. Quero dizer, sem articulaes.
Comendador
Trouxe-me pelos ares o meu esprito. No havia outra maneira.
Don Giovanni
E onde est ele agora?
Comendador
Ficou l fora,  espera.
Don Giovann
Se queres, manda-o entrar, no faas cerimnia, onde cabemos dois, cabemos trs. E mesmo quatro, se contarmos com Leporello.

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Comendador
No te incomodes, o esprito esperar o que for preciso, cedo e tarde so expresses sem sentido para ele.
Don Giovanni
Curioso. E vai ficar l fora at que acabemos de comer?
Comendador
Os mortos no comem, os mortos so comidos.
Don Giovanni
No  preciso estar morto para saber isso. Em todo o caso, tu encontras-te a salvo, os"Vermes so bichos delicados, respeitam o bronze. Mas, agora reparo, se por 
te faltarem as articulaes no te podes sentar, comer tambm no poders. Para comer  preciso dar ao queixo.
Comendador
J te disse que no vim para comer.
Don Giovanni
Para que vieste, ento?
Comendador
Para que te arrependas.

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Don Giovanni 
De qu?
Comendador
Da infmia que cometeste.
Don Giovanni 
Que infmia?
Comendador
Foraste a minha filha, violaste-a.
Don Giovanni
No  verdade. Ela resistiu aos assaltos como uma leoa e Don Giovanni teve de retirar-se. Foi humilhante, mas no houve outro remdio.
Comendador 
No acredito.
Don Giovanni
Pergunta-lhe. Se j no  virgem ser outro o responsvel.
Comendador
Um pai no fala desses assuntos com uma filha. O respeito impede-o.

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Don Giovanni
Isso  l contigo e com ela. Seja como for, no podes vir aqui exigir-me que me arrependa de uma falta que no cometi.
Comendador
Cometeste outras. 
Don Giovanni
Duas mil e sessenta e cinco, se queres sab-lo.
Comendador (
Qu?
Don Giovanni
Duas mil e sessenta e cinco disso a que chamaste faltas ou infmias. Mas toma nota nessa tua dura cabea de que o estupro nunca foi uma actividade sexual do meu 
gosto. Don Giovanni  um cavalheiro, no viola, seduz.
Comendador
A minha filha...
Don Giovanni
A tua filha abriu-me a porta. Admito, em seu abono, que julgasse tratar-se do noivo querido, do etreo Don Octvio, a quem, pelos vistos, costuma receber no seu 
quarto, a ocultas do pai. Ou tu sabias, e calavas? Tambm por respeito?

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Comendador 
s um miservel pecador, mereces ser castigado.
Don Giovanni
Primeiro falavas como um cura, agora vens de carrasco. E tu quem s para quereres castigar-me?
Comendador
Um homem de bem.
Don Giovanni
Nunca o afirmes de ti mesmo, presunoso, espera que to digam.
Comendador
Disseram-mo muitas vezes quando estava vivo.
Don Giovanni
E acreditaste? Nunca viste o prfido rosto da hipocrisia de cada vez que te olhaste ao espelho? s o pai, o marido, o amante ou o irmo de todas as mulheres com 
quem me deitei? E queres ving-las? E vens pedir-me contas? s Deus? Na verdade, penso que seria capaz de tornar a matar-te se no fosses de bronze, comendador...
Comendador 
Arrepende-te.

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Don Giovanni
Nunca perante ti, hipcrita. Conheo bem os da tua espcie. Andais pela vida a distribuir palavras que parecem jias e afinal so enganos, colocais com fingido amor 
a mo sobre a cabea das criancinhas, desviais das tentaes da carne os vossos olhos falsamente pudicos, mas l por dentro roeis-vos de despeito, de cime, de inveja. 
Alimentais-vos da vossa prpria impostura e quereis faz-la passar por virtude sublime. A gente como vs cospe-a Deus da sua boca.
Comendador
No sabes nada de Deus, incrdulo, no ofendas o Seu santo nome. Fica-te com o teu nico senhor, fica-te com o Demnio. Ao inferno, maldito.
Don Giovanni
A minha hora ainda no chegou, e se o meu destino for realmente o inferno, espero, se h justia, encontrar-te l quando entrar.
Comendador
A tua justia no  a de Deus, eu j estou no paraso. Pela ltima vez, arrepende-te. -
Don Giovanni 
No.

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Comendador 
Arrepende-te.
Don Giovanni
No.
Comendador
Assim o quiseste, assim o ters. Que as portas da morada do Demnio se abram ento para ti, que te abrasem as chamas do castigo eterno, que sofras mil anos de torturas 
por cada uma das vtimas da tua concupiscncia. Vai, maldito, o inferno espera-te, tu j no s deste mundo. Vai!
Don Giovanni
Ests louco varrido.
Comendador 
Vai!

(Uma chama alta brota do cho para imediatamente se apagar.)

Don Giovanni
Continuo aqui, comendador. Experimenta outra vez, mas com mais fora. Grita para que o Demnio te oua e mande abrir a porta.

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Comendador (gritando) 
Vai!

(Levanta-se uma chama mais pequena que a primeira e logo se apaga.)

Don Giovanni
Falhaste, comendador, pelos vistos no tens nenhuma influncia no governo do inferno. Talvez seja por estares no paraso, talvez no haja linhas de comunicao. 
Dou-te mais uma oportunidade, a ltima. Costuma-se dizer que s trs  de vez.
Comendador (com desespero)
Vai, maldito, vai! Ordeno-te que vs!

(Uma terceira e insignificante labareda sobe e desaparece.)

Don Giovanni
Acabou-se o gs.

(Don Giovanni ri s gargalhadas enquanto o Comendador, lentamente, como se todo o corpo lhe doesse, se vai tornando rgido, imvel.)

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Cena 2

Os mesmos, depois Leporello, depois Masetto.
Leporello entra com um cabaz onde traz as compras.
Tendo a ateno atrada pelas gargalhadas de Don
Giovanni, no repara na esttua do Comendador.

Leporello
Muito alegre vos venho encontrar, senhor patro. Alguma nova conquista para o catlogo? Alguma outra dona ou donzela a ponto de cair na vossa rede? Ou caiu j, enquanto 
eu fui s compras? No perdeis tempo, senhor.
Don Giovanni
Olha para o que est atrs de ti.
Leporello (assustando-se) 
Cus! O Comendador!...

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Don giovanni
O Comendador est morto. Isso  a esttua dele.
Leporello
E como foi que chegou at aqui?
Don Giovanni
Trouxe-o o esprito.
Leporello
Tambm espritos vamos ter agora? (Pe o cabaz no cho.) Senhor, neste passo das nossas vidas nos separamos, se quer, pague-me o que ainda me est a dever pelos 
meus servios, mas se no quiser pagar-me, tanto me faz, numa casa com fantasmas  que eu no fico nem mais uma hora.
Don Giovanni
Que casa com fantasmas, estpido?
Leporello
Esta, a vossa, senhor.
Don Giovanni
Cabea de burro, ignorante, um esprito no  a mesma coisa que um fantasma, aos espritos no  possvel v-los, so invisveis, enquanto os fantasmas, esses, se 
esto para a virados, se lhes apetece, deixam-se ver pelos viventes. Os fantasmas so divertidos, gostam de pregar

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sustos. O esprito do Comendador no fez mais do que trazer a esttua ao colo. Ficou l fora  espera.
Leporello
Mas eu no o vi.
Don Giovanni
J te disse que os espritos no se vem.
Leporello
Ento, quer dizer que, quando eu entrei, ele estava ali  porta...
Don Giovanni
Suponho que sim.
Leporello
Que passei juntinho a ele...
Don Giovanni 
Provavelmente.
Leporello
Ou que o atravessei de lado a lado...
Don Giovanni ./
 bem possvel. Salvo se se afastou quando te viu aproximar.

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LEPORELLO
Senhor patro, prefiro os fantasmas. Ao menos posso ver onde esto e passar de largo.
Don Giovanni
E eu prefiro que vs fazer o jantar. Agora, j, imediatamente. A estimulante conversa que tive com o Comendador abriu-me o apetite.
Leporello
Ele tambm jantar?
Don Giovanni
No pode comer. Falta-lhe a articulao dos maxilares.
Leporello 
Senhor?
Don Giovanni
Dos maxilares. A articulao dos maxilares.
Leporello
Ah... (Olha a esttua, abana a cabea com comiserao e vai para retirar-se levando o cabaz. Detm-se ao ver umas manchas negras no cho.) Estas manchas pretas no 
estavam aqui quando sa para ir s compras. (Aspira.) E cheiram a queimado, senhor.

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Don Giovanni
Ideias do Comendador, que julga que ainda est na idade de brincar com o lume.
Leporello
Perdoe-me que o contradiga, senhor, uma esttua nunca poderia brincar com o lume. Uma esttua no seria capaz nem de riscar um fsforo.
Don Giovanni (como falando consigo mesmo)
O pobre velho ainda era dos que acreditavam no poder justiceiro das maldies. Eu te amaldioo, filho ingrato... Que lhe havemos de fazer? (Para Leporello.) Ao trabalho, 
senhor Leporello, em cinco minutos quero ver aqui o meu jantar. Para algo ter de me servir despender uma fortuna em pr-cozinhados.
Leporello
Senhor, j vou, j fui, j no estou. (Sai.)
Don Giovanni (aproxima-se da esttua)
Quem s tu agora? Uma esttua que fala, ou um homem que se cala? Ainda crs na existncia do inferno? Dirs que sim, que  tua simples ordem saltaram do solo trs 
labaredas para devorar-me, e eu digo-te que elas no foram mais do que uns mesquinhos fogos-ftuos, como se vem  noite nos cemitrios. Que aqui no h nenhum cemitrio? 
Como te enganas, esttua! A terra  toda ela um sepulcrrio,  mais a gente que se encontra debaixo do

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cho que aquela que em cima dele ainda se agita, trabalha, come, dorme e fornica. Parece que os anos que viveste no te ensinaram muito, esttua. A morte dos malvados 
no  para o inferno que se abre, mas para a impunidade. Ningum poder ferir-te nem ofender-te se j ests morto. Que eu tenha sido na vida um desses malvados? 
Como agora se costuma dizer,  uma questo de ponto de vista, seria para mim uma perda de tempo discutir com um comendador to melindroso assunto. Se queres saber 
a minha opinio, o ser humano  livre para pecar, e a pena, quando a houver, aqui, ouves-me?, aqui na terra, no no inferno, s vir dar razo  sua liberdade. Nunca 
se pronunciaram palavras mais vs do que quando se disse: "Deus te dar o castigo." Seria para chorar se no fosse para rir.
Comendador (saindo do seu silncio de esttua) 
Di rider finirai prima del Vaurora.
Don Giovanni
Veremos. O ltimo a rir ser sempre o que ri melhor. Tu j ests fora da comdia. No passas de um adereo.

(Leporello entra trazendo o jantar. Don Giovanni senta-se  mesa. Msica.)

Don Giovanni (levantando o copo)
Como no posso brindar  tua sade, Comendador, brindo  tua eternidade. Que vivas por l muitos anos. Todos. (Gargalhada.)

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Comendador
Di rider finirai prima deli'aurora.
Don Giovann
Nunca te disseram que a repetio faz perder o efeito dramtico?

(Batem  porta, Leporello vai abrir. Regressa com Masetto.)

Leporello
Senhor, aqui est Masetto.
Don Giovanni (irnico)
E que veio fazer o bom Masetto a esta sua casa?
Leporello (para Masetto) ,,
Responde, homem, no sejas acanhado.
Masetto (tmido, balbuciando) 
Ando  procura de Zerlina.
Don Giovanni
Perdeste-a? Levava-la  trela e ela soltou-se?
Masetto
No, senhor.

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Don Giovanni
Tinha-la fechada em casa e ela saltou pela janela?
Masetto
No, senhor.
Don Giovanni
Por que pensaste que a tua Zerlina tinha vindo para aqui?
Masetto (tomando coragem)
Porque enquanto existir Don Giovanni, tudo  possvel neste mundo.
Don Giovanni
Lisonjeias-me, meu caro Masetto, no sei como to agradea. Nem nos meus sonhos mais complacentes, e tenho tdo muitos, havia alguma vez imaginado que chegasse a 
alcanar semelhante reputao. A partir de agora vou passar a ter mais respeito pela minha pessoa.
Leporello (aparte)
 bem certo o que os sbios modernos afirmam, ningum se conhece a si mesmo.
Masetto (ganhando outra vez coragem) 
Zerlina est aqui?

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Don Giovanni
No respondo a perguntas de camponeses estpidos. Diz-lhe tu, Leporello.
Leporello
Vai tranquilo, Masetto, ela no est aqui.
Masetto (desconfiado)
No est, ou j no est?
Leporello
Nem est, nem esteve.
Masetto
Nem vir a estar?
Leporello (lrico)
O futuro  um mar contido na concha das mos de Deus, normalmente vai caindo sobre as nossas cabeas como o contnuo fluir de uma cascata, mas, de vez em quando, 
sempre h um pedacinho maior que se solta.
Masetto (confuso)
Ests a divertir-te  minha custa?
Don Giovanni
No, caro Masetto, o que Leporello quis dizer  que o

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futuro s a Deus pertence. Mas no te preocupes, quando uma mulher desaparece, geralmente vai para casa dos pais... Conheci muitos casos.
Masetto (ameaador)
Se estais a enganar-me...

(Sai.)

Don Giovanni (para Leporello)
No saio do meu assombro. Leporello, poeta.
Leporello
O mrito no  meu, senhor,  das serenatas que vos tenho ouvido cantar  lua.
Don Giovanni
Nunca cantei serenatas  lua. A luz da lua, sim, mas nunca  lua. No gasto o meu tempo com satlites. Tragam-me estrelas, e ento cantarei.
Leporello 
Mulheres.
Don Giovanni
Dizer mulheres  o mesmo que dizer estrelas, senhor Leporello.

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Comendador (como se despertasse subitamente)
Falso, mentiroso, prfido, intrujo, vigarista, embaucador...
Don Giovanni
Sonhavas comigo, Comendador? Sabes? Agora mesmo me acaba de ocorrer que o facto de no ter conseguido seduzir a doce Zerlina foi talvez o que me salvou de cair h 
bocado no inferno... Que te parece? Imagina que h l uma balana que vai registando o peso das vtimas das nossas maldades e que a nossa alma s comea a estar 
em perigo quando excedemos um nmero convencionado de toneladas de culpa... Que te parece? No crs que uma medida destas poderia haver sido pactuada entre Deus 
e o Demnio por causa do exagerado crescimento demogrfico do inferno nos ltimos tempos? Que te parece?
Comendador
Falso, mentiroso, prfido...
Don Giovanni (falando enquanto se retira)
J sei, j sei... Intrujo, vigarista, embaucador... Regressa ao teu sonho, Comendador. Deixo-te com Leporello.

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Cena 3

Leporello e o Comendador. Depois Dona Elvira, > Don Giovanni, Masetto.

Leporello (dirige-se ao Comendador, enquanto vai recolhendo o servio do jantar)
Agora que estamos sozinhos, com as paredes por nicas testemunhas, e uma vez que, contrariamente ao dito, elas no tero ouvidos enquanto no forem inventados os 
microfones, d-me Vossa Comendadoria licena que lhe faa uma pergunta?
Comendador 
Fala.
Leporello
Com todo o respeito que devo a Vossa Comendadoria,

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tenciona a esttua de Vossa Comendadoria ficar em casa do meu patro para sempre?
Comendador
E a ti, imbecil, que te interessa? Por que queres tu sab- lo?
Leporello 
 que se Vossa Comendadoria veio para ficar, ento eu rogaria  esttua de Vossa Comendadoria, por alma de quem l tenha, o favor de se afastar um pouco para aquele 
lado porque est a empatar o caminho.
Comendador
Semelhante atrevimento, semelhante insolncia no se pagariam nem com cinquenta chicotadas. A ti o que te vale  eu estar morto.
Leporello
Felizmente, senhor.
Comendador
Felizmente, qu?
Leporello
Felizmente que Vossa Comendadoria est morta. So menos cinquenta chicotadas no lombo de um criado.

58

Comendador (dirigindo-se ao pblico)
A minha filosofia sempre me ensinou que  um erro tratar com demasiada confiana esta gentinha, d-se-lhes o p e tomam logo a mo. Em verdade, o nico benefcio 
que encontrei no meu pensamento foi no ter de aturar mais a criadagem. Se cantam bem ainda servem para os coros. Para o resto no valem nada.
LEPORELLO (aps um silncio)
Vossa Comendadoria deu-me licena que lhe fizesse uma pergunta, mas no me deu a resposta. No  maneira de um Comendador se comportar, se me autoriza o reparo.
Comendador (contrariado)
Sim, devo esse respeito aos meus antepassados. Qual foi a pergunta?
Leporello
Se a esttua de Vossa Comendadoria vai ficar para sempre em casa do meu patro.
Comendador
Ficar at que seja feita justia.
Leporello
E isso ser quando, senhor? Quando as galinhas tiverem dentes?

59

Comendador
Nunca ouviste falar dos dinossauros? Houve um tempo em que at as galinhas tinham dentes e garras, e esse tempo pode bem voltar.
Leporello
Antes que tal acontea, o mundo ter tido tempo para morrer de velho. E sem juizes, nem tribunais, nem comendadores...

(Batem  porta, Leporello vai abrir. Entra Dona Elvira. Traz um embrulho na mo.)

Dona Elvira
Don Giovanni est em casa?
Leporello
Sim, senhora.
Dona Elvira
Vai cham-lo. Preciso de falar com ele.
Leporello
Mas, senhora...
Dona Elvira
Mas, senhora, qu?

60

Leporello
Ele disse... disse que no quer ser incomodado.
Dona Elvira
Pois ento diz-lhe que se trata de uma questo de vida ou de morte. Ele que decida.

(Leporello sai.)

Comendador ,
Quem  a senhora?
Dona Elvira
E o senhor, quem ?
Comendador
Sou o pai de Dona Ana, o comendador. Quer dizer, sou a esttua dele.
Dona Elvira
Realmente tinha-me parecido que era uma esttua, mas pensei que fazia parte da decorao. E que veio fazer aqui, se no  indiscrio?
Comendador
No me disse como se chama...

61

Dona Elvira
Dona Elvira, Elvira para os amigos. Uma das pobres vtimas de Don Giovanni.
Comendador
Tal como a minha filha. Dona Ana na sociedade, Aninhas para a famlia.
Dona Elvira
Conheo a sua filha, mas a nossa situao  muito diferente. Eu sou vtima mesmo, no sentido literal do termo, enquanto ela l conseguiu salvar-se do assalto.
Comendador
Quem no se salvou fui eu. De uma estocada o malvado mandou-me para o outro mundo.
Dona Elvira
Por isso veio invadir-lhe a casa.
Comendador
No exactamente, vim c para vingar a ofensa feita  minha filha, a mancha na minha honra de pai.
Dona Elvira 
E conseguiu?

62

Comendador (com tristeza)
No. O mtodo de que me servi estava desactualizado, perdeu a eficcia sem que eu me tivesse apercebido.  o que sucede quando no se lem os jornais todos os dias.
Dona Elvira
Que mtodo era esse?
Comendador 
A maldio.
Dona Elvira
Isso foi cho que deu uvas, comendador.

(Entra Don Giovanni.)

Don Giovanni (para Dona Elvira)
Que queres? Que questo  essa de vida ou de morte que te trouxe aqui?
Dona Elvira (exagerando o dramatismo da frase) 
A minha vida, a minha morte.
Don Giovanni
Em que ficamos? Vida, ou morte?

63

Dona Elvira
Ds-me a vida se me devolves o teu amor, rouba-la se no me recebes nos teus braos.
Don Giovanni
E na minha cama.
Dona Elvira
Sim, na tua cama. Recorda as horas deliciosas que gozmos na minha, ouvindo os sinos da catedral de Burgos. No posso ouvir um sino sem me arripiar toda.
Don Giovanni
Cuidado com as expanses. Esse senhor que a est, mal-encarado, pertence  seita dos puritanos ortodoxos. Quanto a ns, j te disse que est tudo acabado.
Dona Elvira (fazendo meno de ajoelhar-se)
Queres que te implore de joelhos? Queres que me arraste aos teus ps? O amor aceita tudo, e eu amo-te.
Don Giovanni
Noutro tempo, talvez sim, mas agora os teus discursos soam a falso. Se no te retiras, terei de retirar-me eu.  intil tudo quanto aqui se diga.

64

Dona Elvira
Cruel! Pariu-te uma fera, no uma mulher entre as mulheres.
Don Giovanni (saindo)
Adeus. Se calhar por isso  que as procuro tanto.
Leporello (para Dona Elvira)
No poder dizer que eu no a avisei, senhora. Conheo o meu amo como as palmas das minhas mos.
Dona Elvira (fingindo que se sente mal)
Ai, parece-me que vou desmaiar. Um copo de gua, Leporello, um copo de gua, por amor de Deus. Melhor uns sais. Ou as duas coisas.
(Leporello sai correndo.) 
(Dona Elvira abre o embrulho. Aparecer um livro igual ao catlogo 3 das conquistas amorosas de Don Giovanni. Substitui um por outro, refaz o embrulho.)
Dona Elvira (para o Comendador)
Nem uma palavra sobre o que acabou de ver.
Comendador
Descanse, serei mudo como uma esttua.

65

(Leporello entra. Traz, um copo de gua e um frasco de sais.)

Leporello
Por qual quer comear, senhora?
Dona Elvira
A gua, primeiro. (Bebe um gole. Deve poder notar-se que no tem sede.) Agora, os sais. (Aspira rapidamente.)
Leporello
Est melhor, senhora? J lhe passou o fanico?
Dona Elvira
Estou melhor, sim. Mas ordeno-te que sejas mais respeitoso, no chames fanico ao desfalecimento de uma dama que esteve a ponto de cair redonda no cho. Podia ter 
morrido.
Leporello
Sim, senhora.
Dona Elvira
Vou-me embora para sempre. Murchas, deixo aqui as minhas esperanas, caducas, as minhas iluses. A vida deixou de ter sentido para mim. Quem sabe? Talvez v acabar 
os meus dias num convento. (Sai)

66

Leporello
Desconfio que se fosse actriz ningum a chamaria para lhe oferecer um contrato... Que opina Vossa Comendadoria sobre a representao de Dona Elvira? Pareceu-lhe 
sincera?
Comendador
Sincera como representao, ou como realidade?
Leporello
Como representao, a realidade no conta aqui para nada.
Comendador
Pensando melhor, prefiro no opinar. O prprio das esttuas  no falar. Os seus lbios esto selados.
Leporello
Pois no se pode dizer que Vossa Comendadoria tenha falado pouco at agora...
Comendador
Sou uma excepo, mas s falo quando quero.

(Entra Masetto.)

Masetto (inquieto)
Diz-me a verdade, Leporello. Zerlina est aqui? No a encontro em nenhuma parte.

67

Leporello
Queres saber a verdade, toda a verdade?
Masetto 
Sim...
Leporello (d-lhe o frasco de sais)
Toma, vais precisar deles. Zerlina est na cama com Don Giovanni.
Masetto 
Qu?
Leporello 
 como te digo. Na cama com Don Giovanni.
Masetto
Ah, infame, mulher sem vergonha, desgraada causa da minha perdio! Eu mato-a, eu mato-a! E mato-o a ele! Aos dois, aos dois! (De navalha em punho, corre aporta 
que d para o interior da casa, mas Leporello interpe-se.)
Leporello
Aonde queres ir, estpido?
Masetto (desesperado) 
A mat-los, a mat-los!

68

Leporello
Tranquilo, homem, tranquilo, foi s uma brincadeira, Zerlina no est aqui. .,,, ;. .
Masetto
No queiras enganar-me agora. s o criado dele...
Leporello
Pela alma dos meus defuntos, juro-te que Zerlina nunca entrou nesta casa.
Masetto (forcejando)
No acredito em ti.
Leporello
Se no acreditas em mim, pergunta a essa esttua.
Masetto
As esttuas no falam.
Leporello
Esta, sim. E dir-te- a verdade porque as esttuas no podem mentir.
(Masetto duvida, mas a ansiedade tem mais fora que o cepticismo.)

69

Masetto
Senhor, no sei quem sois, mas tirai-me desta aflio. Zerlina est aqui?
Comendador (com voz de esttua) 
No.
Masetto
Desculpai, senhor.  certo o que me dizeis?
Comendador
A minha palavra  s uma. Palavra de esttua no volta atrs.
Masetto
Obrigado, senhor, obrigado, Deus vos pague. (Sai.)
Comendador (a Leporello)
Como sabias tu que as esttuas no podem mentir?
Leporello 
 muito simples. No tm nada dentro da cabea.

70

Cena 4

Don Giovanni, Leporello, Comendador, depois Dona Elvira, Don Octvio e Dona Ana.
(Don Giovanni, sentado, l o jornal. : Leporello limpa e puxa o brilho  espada do amo. A esttua do Comendador continua no mesmo stio.)

Leporello
O pobre Masetto, coitado, anda com a ideia fixa de que a sua Zerlina veio para aqui. J so duas vezes que vem c perguntar. Imagino que algum motivo ela lhe ter 
dado para que ele pense assim.
Don Giovanni :
Seja ele qual for, no a trouxe a esta casa.

73

Leporello
At agora, senhor, at agora.
Don Giovanni
Leporello, s um ignorante, no entendes nada de psicologia feminina. Uma mulher que se negou uma vez poder no negar-se segunda, mas nunca o faria por iniciativa 
prpria, esperaria at que a rodeassem de novas splicas, de novas imploraes, em suma, de novas manobras de seduo. Ento, sim, iaria a bandeira branca que j 
tinha preparada.
Leporello
Quer dizer que Dona Ana, por exemplo, tambm estaria disposta a deitar abaixo as muralhas do rancor que lhe tem?
Don Giovanni
Isso  diferente. Matei-lhe o pai.
Comendador
Sim, mataste-me, mas a justia no tarda a, j tem o p no primeiro degrau da escada.
Don Giovanni
Sendo assim, devemos receb-la com a considerao que merece. Vir nua? Ou  a verdade que  representada despida? Leporello, vai abrir a porta. Seria uma falta 
de respeito obrigar a justia a tocar a campainha...

74

Leporello (resmungando enquanto executa)
Esta esttua ainda ser a nossa perdio. Se no fosse de bronze j lhe teria dado uma boa martelada. De passagem, como quem no quer a coisa.

(A porta est aberta. Pausa.
Don Giovanni volta  leitura do jornal.
Leporello hesita, mas, reparando na serenidade do amo, retoma a limpeza da espada.)

Leporello (para o Comendador)
Vossa Comendadoria enganou-se. No vem ningum.
Comendador
Vai ver.

 (Leporello vai  porta e olha para fora.
Recua no mesmo instante.)

Leporello
No  a justia, ...

(No termina a frase. Entram, sucessivamente, Dona Elvira, Dona Ana e Don Octvio.)

Don Giovanni (baixando o jornal) <
Dona Elvira, Dona Ana, Don Octvio... Em que vos posso ser til a estas horas j tardias da noite?

75

Dona Ana (dirigindo-se a Leporello) 
Que faz aqui a esttua do meu pai?
Leporello
Senhora, eu sou Leporello... O dono desta casa  Don Giovanni. Pergunte-lhe a ele.
Don Giovanni
No perguntar, Leporello, tu no conheces o orgulho desta dama. Perguntou-te a ti porque s o criado, mas no perguntar ao amo. Ou talvez sim. Dmos-lhe tempo, 
(Silncio.)
Dona Ana (sem olhar para Don Giovanni) 
Que faz aqui a esttua do meu pai?
Don Giovanni
Como viste, Leporello, a pergunta foi lanada ao ar. Portanto, o ar que lhe responda.
Dona Ana (olhando finalmente Don Giovanni) 
Que faz aqui a esttua do meu pai?
Don Giovanni
No a chamei, veio pelo seu p. Se quer saber mais, pergunte-lhe.

76

Dona Ana
As esttuas no falam.
Don Giovanni, Dona Elvira, Leporello (juntos)
Esta, sim. Maravilha da nossa idade, prodgio jamais visto, assombro das geraes vindouras, fenmeno que todos os circos do mundo disputaro, eis aqui uma esttua 
que fala.
Dona Ana
Pai, meu querido e chorado pai, por que foi que vieste do campo-santo a este antro ignbil onde a maldade se multiplica como a rainha da colmeia s abelhas? Que 
foi que te fez abandonar o silncio e a fatal imobilidade da morte?
Comendador
Vim para amaldioar e condenar s penas do inferno o infame que te ofendeu. Mas as maldies parece que j no caem sobre as cabeas dos culpados e o inferno talvez 
no exista ou talvez tenha fechado para sempre as suas portas. As chamas apagaram-se, o mal  livre.
Dona Ana
Enganas-te, pai, o inferno existe mesmo. Don Giovanni no precisar de morrer para cair no inferno, o inferno ser a sua prpria vida a partir deste momento.
Comendador
Que queres dizer? Ds-me uma alma nova!

77

Dona Ana (para Dona Elvira)
Elvira, minha amiga, conta-me, alguma vez amaste a Don Giovanni?
Dona Elvira 
No.
Dona Ana
Alguma vez foste para a cama com ele?
Dona Elvira 
Nunca.
Dona Ana
Ele afirma que sim.
Dona Elvira 
Mente.
Don Giovanni
Que comdia  esta? Aonde quereis chegar, demnios?
Dona Elvira
Ana, minha amiga, conta-nos agora o que realmente se passou no teu quarto.

78

Dona Ana
Ao princpio, pensei que se tratava do meu noivo, Don Octvio aqui presente, e o desejo disps-me logo para os jogos do amor, mas no tardei muito a aperceber-me 
de que o homem que me apertava nos braos era impotente. Ora, devo esclarecer, com o meu saber de experincia feito, que o meu Don Octvio, de impotente, no tem 
nada. Empurrei de cima de mim o desgraado e ento vi quem era. O resto j sabem. Fugiu, meu pai cortou-lhe o passo e isso custou-lhe a vida. Para matar um velho, 
Don Giovanni ainda serviu, mas no para levar uma mulher ao paraso.
Don Giovanni (rindo)
E que diz Dona Elvira, que veio de Burgos para suplicar-me que lhe desse ateno e voltasse para os seus braos?
Dona Elvira
Fingimentos meus para divertir-me  tua custa, filho dilecto da mentira.
Don Giovanni
Tu s a mentirosa, tu e essa mulher que acaba de contar uma histria em que no h nem sequer a sombra de uma verdade.
Dona Ana, Dona Elvira
A tua apregoada vida de sedutor  que  uma falsidade do princpio ao fim, um invento delirante, nunca sedu-

79

ziste ningum, farejas como um co fraldiqueiro as saias das mulheres, mas nasceste morto entre as pernas.
Don Giovanni (encolhendo os ombros)
Duas mil mulheres diro o contrrio.
Dona Ana, Dona Elvira
Quando souberem que te fizemos cair do pedestal, passaro a dizer o mesmo que ns. Podes ter a certeza.
Don Octvio (para Don Giovanni)
Por falso e caluniador o que merecias era que eu te atravessasse com a minha espada, mas o desprezo das pessoas honestas te matar, cada dia que vivas ser como 
uma morte para ti.
Don Giovanni
Leporello, o livro. Abre-o e atira-lhes com a verdade  cara.
Leporello (tendo aberto o livro)
Senhor, senhor Don Giovanni, os nomes desapareceram, as pginas esto brancas...
Don Giovanni
Qu? (Arranca o livro das mos de Leporello. Folheia-o desesperado.) Que aconteceu? Que aconteceu? Para onde foram os nomes que aqui estavam escritos? (Para Leporello.) 
Que fizeste tu, maldito?

80

Leporello (tremendo)
Eu, nada, senhor... No fiz nada, senhor... Como poderia eu fazer algo? O livro estava ali... Seria a m qualidade da tinta...
Don Giovanni
A maldio!
Comendador, Dona Ana, Dona Elvira, Don Octvio 
Sim, a maldio!

(Os quatro riem, o Comendador em gargalhadas estentreas, como se supe que seja prprio de uma esttua de bronze.)

Don Giovanni
Leporello, a minha espada. Vou matar um idiota que desde que isto comeou no tem feito outra coisa que esconder-se atrs das saias da sua mentirosa amsia... (Entrega 
o livro a Leporello e recebe a espada.)
Don Giovanni (para Don Octvio)
Defenda-se, senhor!
Don Octvio
No cruzarei o ferro com um falso e um caluniador, seria envergonhar os meus antepassados. No mancharei a minha honra.

81

DON GIOVANNI
A minha espada  que vai ser manchada pelo teu sangue de poltro. Se no te defendes, escarro-te na cara, miservel. Pode ser que com essa ltima provocao a tua 
honra se digne dizer-te o que  tua obrigao fazeres. Pela ltima vez te ordeno, defende-te!

(Don Octvio desembainha a espada e avana sobre
Don Giovanni. Este apara os golpes e contra-ataca lanando uma estocada ao corao do adversrio.
Don Octvio cai. Dona Ana precipita-se para
Don Octvio, soergue-o, ampara-o. E intil,
Don Octvio est morto.)

Dona Ana
Monstro! Que todas as feras da terra te devorem mil vezes e mil vezes te vomitem! Mataste o meu pai, agora o homem que eu amava, que mais te falta ainda para que 
o cu te castigue?
Dona Elvira
Ns j o castigmos. O cu esperar a sua vez, mas no far pior.
Don Giovanni (quase murmurando, como se estivesse em transe)
Haveis mentido... Haveis mentido...

(Dona Ana e Dona Elvira arrastam o cadver para fora, Leporello ajuda-as. Saem. Don Giovanni

82

pega no livro que Leporello tinha deixado em cima de uma mesa. Olha-o. Com a espada numa mo e o livro na outra, Don Giovanni est s.)

Comendador
Agora, sim, caste no inferno.

83

Cena 5

Comendador, Don Giovanni, depois Zerlina. .,, (A porta est aberta. Leporello ainda no regressou.
Don Giovanni est sentado, com a cabea descansando entre as mos. A espada e o livro, no cho.)

Comendador
Vencido, Don Giovanni?
Don Giovanni
Confundido. No consigo compreender o que se ter passado com o maldito livro.
Comendador
Talvez tenha sido culpa da qualidade da tinta, como disse o teu criado.

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DON GIOVANNI
No acredito. Algum resto deveria ter permanecido no papel, uma sombra, um vestgio, um nome que fosse, um simples nome. (Expresso sonhadora.) Laura, Beatriz, Helosa, 
Juiieta, Helena, Margarida...
Comendador
Se a memria no me engana, esses nomes que disseste no so simples nomes. E, se os tinhas escritos no teu livro, no podiam corresponder s mesmas pessoas.
Don Giovanni
Como sabes tu dessas coisas? Supunha que por a no se chegava a comendador.
Comendador
Quando jovem fiz as minhas leituras.
(Pausa.)
Don Giovanni 
 a altura de te ires embora. O pano ainda no caiu, mas o espectculo j terminou.
Comendador
No posso ir-me daqui sozinho. Preciso do esprito que est l fora. Foi ele que me trouxe, s ele me pode levar.

88

Don Giovanni
Dou-te uma hora para sares. Se esse esprito que era o teu te tiver abandonado, como comeo a suspeitar, Leporello empurra-te l para fora.
Comendador
Sou muito pesado. ''
Don Giovanni
No  nada que um p-de-cabra e uma boa alavanca no possam resolver... Parece-me ouvir passos, a vem Leporello.

(Entra Zerlina. Pra  entrada da porta.)

Zerlina
Don Giovanni.
Don Giovanni
Zerlina. Que fazes aqui?

(Don Giovanni corre  porta, traz Zerlina pela mo.)

Don Giovanni
No esperava tornar a ver-te. (Mudando de tom.) Masetto tem andado  tua procura. J veio duas vezes perguntar por ti. No sei por que se lhe meteu na cabea que 
poderias estar em minha casa...

89

Zerlina
No precisa fingir, todos sabemos porqu. Tentou seduzir-me e eu estive a ponto de ceder. E ele teve medo de que eu tivesse vindo entregar-me por minha livre vontade.
Don Giovanni (desconcertado) 
E no  o caso?
Zerlina
No. Tinha sado de casa porque precisava de estar sozinha. O que ele pensou, com o seu cime, no tem nada que ver com a realidade.
Don Giovanni
Mas agora ests aqui...
Zerlina
Sim, estou aqui.
Don Giovanni 
Porqu?
Zerlina
Encontrei no caminho Dona Ana, Dona Elvira e Leporello. Levavam o cadver de Don Octvio em cima de um cavalo. Perguntei como tinha morrido e disseram-me que o matador 
havia sido Don Giovanni.

90

Don Giovanni
Em duelo leal. Morreu ele, podia ter morrido eu. (Pausa.) Foi por isso que vieste?
Zerlina
No. Depois falaram-me de um livro onde se encontravam escritos os nomes de todas as mulheres que havia seduzido at hoje...
Don Giovanni (apontando) Este livro.
Zerlina  
O livro no  esse. , ,,.
Don Giovanni 
 este, sim.
Zerlina
Esse livro foi trazido por Dona Elvira. }
Don Giovanni (ansiosamente)
E o outro?
Zerlina
Levou-o. Queimou-o  minha frente.

91

Don Giovanni (deixando-se cair numa cadeira)
Enganado! Miseravelmente enganado! (Mudando de tom.) E ento resolveste vir aqui para te rires de Don Giovanni... Tu tambm.
Zerlina
No vim para me rir de ti. Vim porque havias sido humilhado, vim porque estavas s, vim porque Don Giovanni se tinha tornado de repente num pobre homem a quem haviam 
roubado a vida e em cujo corao no restaria seno a amargura de ter tido e no ter mais.
Don Giovanni
J viste esse homem, agora podes ir-te. Don Giovanni est to morto como Don Octvio.
Zerlina 
No irei.
Don Giovanni
Que queres que faa contigo?
Zerlina 
 tempo de que eu te conhea e me conhea a mim.
Don Giovanni 
E Masetto?

92

Zerlina
No amo Masetto, amo-te a ti.
Don Giovanni
Tremem-me as mos. Este no  Don Giovanni.
Zerlina
Este  Giovanni, simplesmente. Vem.

(Saem abraados. A esttua do Comendador cai desfeita em pedaos.)

93

Cena 6

Entra Leporello. Depois Masetto.
(Leporello levanta do cho a espada e o livro.
Limpa cuidadosamente a espada suja de sangue.
Interrompe o trabalho para pegar no livro e abri-lo.,
Folheia-o, abana a cabea como quem renunciou a discutir com o irremedivel. Lana o livro s chamas que ardem na chamin.
Fica a olhar uns momentos, depois volta  limpeza da espada.) ''' Entra Masetto.

Leporello
No me digas que vens perguntar outra vez por Zerlina...

97

Masetto
Sim, essa  a pergunta.
Leporello
Se est c, no a vi entrar.
Masetto
Fala claro. Est, ou no est?
Leporello
J respondi. Ajudei a levar daqui o corpo de Don Octvio, que Don Giovanni matou em duelo. No posso jurar sobre o que se passou durante a minha ausncia.
Masetto
Ento  verdade que Zerlina est a dentro?
Leporello
Talvez sim, talvez no. J te disse que no sei. Mas se ela est onde decidiu, ento, caro Masetto, tira o sentido dela, no lhe tornars a tocar nunca mais.
Masetto
Hei-de vingar-me.

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Leporello
No vale a pena, Masetto, no percas o teu tempo. Deus e o Diabo esto de acordo em querer o que a mulher quer.

Sai Masetto. Leporello volta  limpeza da esttua.
Cai o fano

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Gnese de um libreto

Graziella Seminara (Traduo do italiano por Mrio Vieira de Carvalho)
O encontro artstico entre Azio Corghi e Jos Saramago deu-se em fins dos anos 80 com a pera Blimunda, inspirada numa das mais significativas obras do escritor 
portugus, o romance Memorial do Convento, e levada  cena em estreia absoluta no Teatro Lrico de Milo, a 20 de Maio de 1990. Para o compositor no era esta a 
primeira prova de teatro musical: Corghi j tinha feito a sua estreia havia alguns anos com Gargantua (1984, sobre libreto de Augusto Frassineti, extrado de Gargantua 
et Pantagruel de Franois Rabelais) cumprindo desse modo um rduo itinerrio de reapropriao da 'cena' operstica, conduzido em contraste com a resistncia ntelectualista 
da vanguarda ps-weberniana, com os seus preconceitos e reservas quanto ao prprio estatuto esttico da pera.
Na obra-prima de Rabelais (lida atravs do ensaio de Mikhail Bakhtin sobre A Obra de Rabelais e a Cultura Popular) o compositor descobrira a exaltao de uma abor-

103

dagem livre e jovial da vida, captada na linguagem e no imaginrio da cultura popular, do riso carnavalesco da praa pblica e do iderio mais avanado do pensamento 
renascentista, celebrado por Erasmo de Roterdo no Elogio da Loucura. No romance de Saramago, Corghi encontrava, por sua vez, a sentida meditao sobre a trgica 
violncia da Histria, captada nos seus dolorosos reflexos sobre vidas humanas envolvidas na monumental empresa da construo do Convento de Mafra, tendo como pano 
de fundo os terrores da Inquisio e a violncia do Absolutismo no Portugal das primeiras dcadas do sculo XVIII. Tambm na pera seguinte, Divara (1993), derivada 
do drama sombrio In Nomine Dei, Corghi reencontrou a impediosa desumanidade da Histria, na reconstruo saramaguiana da revolta anabaptista ocorrida em Miinster 
entre 1532 e 1536 e concretizada na implantao de um cruel e sanguinrio regime teocrtico, por fim destrudo pelo feroz regresso dos catlicos  cidade alem, 
aps um cerco terrvel e devastador. Alm destas duas peras, o catlogo das composies de Corghi contm outros trabalhos inspirados na produo literria de Saramago. 
O romance O Evangelho segundo Jesus Cristo  a fonte das cantatas La morte di Lazzaro (1995) e Cruci-verba (2001), nas quais o compositor faz sua a sentida interrogao 
do escritor sobre o significado ltimo da existncia face  presena iniludvel da morte e ao escndalo intolervel do 'mal'. No poema musical ... sotto Vombra che 
il bambino solleva (1999), composto a partir de uma seleco dos poemas em prosa com o ttulo O Ano de 1993, Corghi cruza-se com uma problemtica que tambm atravessa 
os ltimos romances de Saramago: a problemtica bem moderna das novas formas de controlo das conscincias exercido pelo poder na sociedade contempo-

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rnea, a que o escritor ope o nostlgico desejo de um mundo diferente, a esperana de uma ainda possvel redeno. No universo potico de Saramago, pleno de desespero 
filosfico tanto quanto de humanstica tenso para a utopia, Corghi viu, pois, reflectidas as mesmas razes que esto na base da sua prpria pesquisa artstica: 
"Permitiste-me dizer, atravs da msica, aquilo que penso dos acontecimentos do mundo", escreveu a Saramago a 8 de Outubro de 1998, aps ter recebido a notcia da 
atribuio do Prmio Nobel ao escritor portugus. Mas tambm para Saramago foi importante o encontro com Azio Corghi, marcando profundamente a sua aventura existencial 
e literria: "A arte, a amizade, a generosidade de Azio Corghi trouxeram  trajectria da minha existncia uma riqueza que eu jamais teria adquirido sozinho. Graas 
a Azio Corghi, a urdidura de palavras que criei tornou-se msica, tornou-se canto. Foi um feliz encontro, o nosso. Creio que vale a pena conservar o entrelace que 
somos, ele e eu", declarou o escritor no prefcio ao Catlogo das Obras do msico, publicado pela Ricordi em 1995 ('). E numa carta enviada, juntamente com a mulher, 
Pilar, a Corghi em Julho de 2001 por ocasio da composio de Cruci-verba, Saramago confidenciou-lhe com gratido: "No sei como agradecer-te por tudo o que fizeste 
(e continuas a fazer), elevando a minha literatura ao cu da msica [...] Temos plena conscincia de ter vivido, graas ao teu trabalho e 

(') Sobre a relao artstica entre Saramago e Corghi, cfr. Graziella Seminara, "The litterary works of Jos Saramago in the musical theatre of Azio Corghi", in 
Colquio/Letras, Janeiro/Junho de 1989, nmero monogrfico dedicado a Jos Saramago: o Ano de 1998, por ocasio da atribuio do Prmio Nobel de Literatura.

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 tua amizade, momentos que se inscrevem entre os mais belos da nossa vida." (2)
Com // dissoluto assolto (O dissoluto absolvido) Corghi e Saramago encontraram-se para enfrentar uma teatralidade de novo tipo e contudo no completamente estranha 
aos seus respectivos trajectos pessoais. A pera foi encomendada a Corghi pelo Teatro alia Scala de Milo em 2003 e concebida por Saramago em resposta a uma solicitao 
precisa do msico. A prpria gnese de O dissoluto absolvido decorreu, por isso, na base de um dilogo cerrado entre escritor e compositor. Da progressiva e trabalhada 
elaborao dos dois textos - o teatral de Saramago e o libretstico, fixado por Corghi, mas ratificado pelo escritor portugus - d testemunho uma abundante correspondncia, 
trocada entre Novembro de 2003 e Outubro de 2004, atravs do novo meio de comunicao 'em tempo real' proporcionado pelo correio electrnico.
A possibilidade de seguir in progress a elaborao de O dissoluto absolvido permite no s conhecer por dentro uma relao de grande intensidade afectiva e intelectual, 
que no evita o confronto e a ironia, mas tambm entrar nos 'laboratrios' privados dos dois artistas e descobrir na gnese desta pera da autoria de ambos alguns 
dos aspectos mais significativos das respectivas pesquisas. As cartas de Corghi so todas em lngua italiana, enquanto Saramago escreve a maior parte das vezes em 
francs, uma vez por outra em espanhol ou em portugus. O texto teatral original de O dissoluto absolvido  em lngua portuguesa e a verso italiana foi, de novo, 
confiada a Rita Desti, preciosa intermediria - com o seu trabalho de tradu-

(2) Em francs no original. (N. do E.)

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o - nos momentos de debate mais intenso entre os dois artistas. Como aqueles em que a relao epistolar, reforada pela urgncia da discusso, se tornou to intensa 
que deu lugar a seis cartas num s dia: como acontece em 20 de Maio e 29 de Junho de 2004, coincidindo com marcos fundamentais no complexo percurso de elaborao 
da pera.
Uma primeira missiva relativa a um possvel projecto data de 7 Novembro de 2003, quando Azio Corghi comunica a Saramago ter recebido do director artstico do Teatro 
alia Scala a encomenda, para a temporada de 2005, de "um "acto nico" para juntar  escandalosa pera Sancta Susanna de Hindemith": "Lembrei-me imediatamente", prossegue 
Corghi, "de me teres falado, na sala do Auditrio de Santa Ceclia, da ideia de escrever um libreto sobre A Verdadeira Morte de Don Giovanni. Ainda te interessa? 
Penso numa histria que se inicia com o convite ao comendador para a ceia, provavelmente s com homens em cena (tambm porque a Santa Susanna s tem mulheres)..." 
A resposta de Saramago  confiada, no dia seguinte,  mulher: depois de ter manifestado "a alegria que nos deu a notcia" (3), Pilar faz saber a Corghi que o escritor 
est empenhado na finalizao do seu Ensaio sobre a Lucidez e que s depois da concluso do romance poder dedicar-se  nova pera. Uma mensagem pessoal de Saramago 
chega no primeiro de Dezembro e deixa entrever j a ideia que o escritor faz do "novo Don Giovanni":
"A ideia de um novo Don Giovanni interessa-me muitssimo, ainda que neste momento no possa pensar em nada mais seno no romance em que estou a trabalhar. Se tudo 
me sair bem at final, conto poder termin-lo nos 

(3) Em espanhol no original. {N. do E.)

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primeros dias de Janeiro. A seguir terei que rever as provas, a seguir terei que fazer as viagens de "promoo", e ento ficarei mais ou menos livre. A minha ideia 
 que Don Giovanni, ao contrrio do que sempre se diz, no  um sedutor, mas antes um permanente seduzido. A simples presena de uma mulher perturba-o. Mas isto 
no  o importante, O importante  a dignidade de quem  capaz de dizer NO quando no s a sua vida mas tambm a salvao da sua alma se encontram em perigo.  
certo que Don Giovanni  um fraco com as mulheres, mas "compensa-o" bem com a sua fora tica no momento em que  tentado pela facilidade hipcrita do perdo. Estamos 
perante um paradoxo: Don Giovanni, o sujeito imoral por excelncia,  um homem fiel  sua prpria responsabilidade tica. Eis o que gostaria de ver salientado no 
texto." (4)
Fiel  sua posio fundamental nos confrontos com todas as 'verdades' constitudas, Saramago pensa numa revisitao do 'mito' de Don Giovanni, que - como j sucedeu 
com outras obras suas sobre a Histria ou o Evangelho - quer provocatoriamente 'reescrever': para pr em discusso as verses 'oficiais' e as leituras simplistas 
e para consubstanciar uma nova, e alternativa, viso do mundo. O prprio Saramago, numa carta de 12 de Janeiro de 2004 onde anuncia ter terminado o Ensaio sobre 
a Lucidez, confirma indirectamente - fazendo referncia ao Evangelho segundo Jesus Cristo - a continuidade desta abordagem, relativamente s obras literrias precedentes:
"Acabo de terminar finalmente o meu Ensaio sobre a Lucidez, e para o fazer precisei de fechar todas as portas que do para o mundo exterior. Eis-me agora livre para 
te 

(4) Em espanhol no original. (N. do E.)

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dizer que me encarregarei com todo o gosto de um texto sobre a morte de Don Giovanni (j tnhamos uma morte de Lzaro...) a respeito do qual a ideia condutora ainda 
no est bem clara na minha cabea, mas isso vir." (5)
Na carta de 2 de Maro de 2004 o escritor portugus demonstra ter j amadurecido um primeiro esboo do argumento. Corghi propusera-lhe conceber a nova pera a partir 
da cena final do Don Giovanni de Mozart e limitar-se  utilizao de "trs personagens masculinas (Don Giovanni, Leporello, o Comendador) e o Coro". Saramago pe 
o problema do 'sentido' de tal operao:
"Estars de acordo comigo sobre a impossibilidade de escrever qualquer coisa de novo a propsito de Don Giovanni. Ser que ainda haver lugar para uma abordagem 
que, sem voltar completamente as costas s expectativas "legtimas" do espectador que conhece a histria, seja capaz de abanar o dj vue? De o abanar ao menos um 
pouquinho?
"Disseste-me que tinhas necessidade para a nossa pera dos seguintes papis: Don Giovanni, o Comendador, Leporello e tambm um Coro. Para fazer o qu? Eis o grande 
problema. O facto de estas personagens serem as mesmas da cena final de Lorenzo da Ponte obrigaria a glosar mais uma vez (e a um nvel muito inferior...) a queda 
e a condenao de Don Giovanni aos infernos.
"A minha ideia  um pouco mais complexa. Haver um "Coro" mas ser reduzido a Donna Anna, Donna Elvira, Don Ottavio e Masetto. O Comendador estar l, Leporello 
tambm. Que querem eles? A nica maneira de "vencer" Don Giovanni  negar, contra toda a verdade, as suas vitrias amorosas: Don Giovanni  um mentiroso, no seduziu 
uma 

(5) Em francs no original. (N. do E.)

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nica mulher em toda a sua vida. E quando o pobre Don Giovanni, para se defender, para se justificar, ordena a Leporello que exiba o famoso catlogo, v-se que todas 
as suas folhas ficaram em branco... Eis, pois, o nosso Don Giovanni vencido, humilhado, desprezado. O sarcasmo cai sobre ele como uma maa, os bem-pensantes triunfaram. 
Mas...
"Mas h algum que chega.  Zerlina, a moa camponesa que Don Giovanni no teve tempo de seduzir, ela chega para repor as coisas da vida no seu lugar, por sua prpria 
vontade ela ser a sedutora... Deitam-se, vo fazer amor. A esttua do Comendador desfaz-se em pedaos. Cai o pano.
"Que te parece? Crs que se poder trabalhar nesta direco?" (6)
As hipteses de trabalho de Saramago interessam a Corghi, que se mostra consciente do desafio lanado pelo escritor: 'repensar' ironicamente um dos mitos mais radicados 
do imaginrio da cultura europeia, do qual Mozart nos legou uma interpretao ambgua e problemtica na sua pera mais ousada e complexa. "O teu projecto  "perigoso", 
mas fascinante", admite numa carta de 7 de Maro de 2004, "e, se eu conseguisse encontrar o "ritmo justo" graas ao teu texto, o resultado devia ser divertido (mas 
mais prximo do tom do Falstaffo que do da opera buffa). Portanto, vale a pena correr o risco." O msico orienta-se assim para uma pera distante das paisagens 
trgicas e devastadas de Blimunda ou Divara e da sua sonoridade lvida, que lembra a lio expressionista, e imagina O dissoluto absolvido "mais prximo do tom" 
da derradeira obra-prima operstica de Verdi, que com supe-

(6) Em francs no original. (N. do E.)

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rior ironia deu no Falstqff uma "leitura implacvel do jogo da vida, da constante convivncia, nesta, do srio e do burlesco, do trgico e do ligeiro, do sublime 
e do vulgar" (7). Definida a 'tinta' fundamental da nova pera, Corghi comea a gizar as bases da dramaturgia musical e faz a Saramago diversas propostas. Sugere 
a introduo de um Prlogo em que Leporello cante a sua famosa ria 'do catlogo': "Substancialmente", escreve, "devemos tornar compreensvel a viragem do avesso 
de um arqutipo cultural (o mito de Don Giovanni) aceitando  partida o "dj vu" (ria de Leporello) a fim de evidenciar melhor a tua primeira ideia." E pensa em 
traduzir musicalmente a figura do Comendador ("E um monumento  hipocrisia?", interroga-se) com um "coro masculino", que valorize por contraste "a "feminil" entrada 
em cena da "simples" Zerlina". Tambm estas resolues de Corghi esto na continuidade da sua pesquisa dramaturgica: aquilo em que pensa  na possibilidade de criar 
um jogo de refraces e remisses para a partitura do Don Giovanni mozartiano, retomando aquela reapropriao 'crtica' do passado musical que caracteriza o seu 
modo de compor (*) e que encon-

(7) Pierluigi Petrobelli, "Una lettura implacabile del gioco della vita", in Un bailo in maschera, Catania, Teatro BelHni, Temporada Lrica 1994-1995, programa, 
p. 17.
(8) J no Gargantua Corghi ps em prtica uma abordagem semelhante da msica do passado: a pera  toda construda com base em operaes de 'viragem s avessas, 
carnavalesca, similares s do romance de Rabelais e realizadas atravs de um sarcstico e dessacralizante 'voltar de pernas para o ar' os mais austeros processos 
da tradio culta europeia. Assim, todo o patrimnio musical integrado pelo compositor em Gargantua  'desconsagrado' e, simultaneamente, libertado dos nus da elevao 
e da seriedade.

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tra correspondncia no olhar 'oblquo' com que Saramago afronta as grandes questes levantadas atravs do seu empenho literrio. Por outro lado, ao confiar a 'voz' 
do Comendador a um "coro masculino", o compositor prope-se tomar distncias para com o universo representado na pera. Renova assim a irrenuncivel tendncia para 
um teatro de tipo 'pico' (9) onde o autor afirma a sua prpria 'presena esttica' tanto no plano lingustico como no 'ideal': atravs do emprego de processos de 
escrita que lhe so directamente reconduzveis, Corghi comunica a sua prpria posio sobre os eventos desenrolados em cena e ao mesmo tempo torna evidentes "os 
mtodos que esto na base da criao da pera" (10), permitindo ao ouvinte partilhar da complexa riqueza do processo compositivo e conferindo ao prprio teatro uma 
dimenso auto-reflexiva tipicamente do sculo XX.
Resta uma dvida a Corghi quanto s "pginas em branco" do catlogo de Leporello: "apagadas de que modo e por quem?", pergunta ao escritor. Num primeiro momento 
Saramago prev - na carta de 12 de Maro de 2004 - que os "nomes do catlogo de Leporello [...] desapaream muito simplesmente, sem interveno de ningum. Para 
ser mais preciso, eles no desaparecem, jamais foram escritos.  tudo uma iluso. Creio que  possvel fazer-se um Don Giovanni um pouco borgeano, um pouco kafkiano...":

(9) Cfr. Cari Dahlhaus, "11 teatro pico di Igor Smivinskij", in Stravinskij, ed. de Gianfranco Vinay, Bologna, II Mulino, 1992, pp. 81-114. A noo de "teatro pico" 
 empregada por Dahlhaus para definir a experincia teatral de Stravinsky. mas pode ser utilizada tambm para explicar outras orientaes dramatrgicas do sculo 
XX.
(10) Cari Dahlhaus, // teatro pico, cit., p. 93.

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parece, pois, conjecturar uma vida levada sobre o fio do absurdo, discordante da ideia de um Don Giovanni "iluminista" evocada por Corghi no incio do projecto do 
Teatro alia Scala. Mas j no "resumo" do texto dramtico que envia a Corghi a 29 de Maro, e que Rita Desti se apressa logo a traduzir para o msico, o escritor 
atribui a Donna Elvira a responsabilidade da substituio do catlogo de Leporello por um "livro" onde "nada est escrito": o en-trecho da pera segue assim uma 
outra trajectria, e a eliminao das provas das sedues do protagonista  apresentada como uma vingana de Donna Anna e Donna Elvira, que inexoravelmente se atiram 
contra Don Giovanni para o condenar a um 'inferno' completamente terreno, desvinculado das dimenses metafsicas que Mozart tinha condensado na condenao final 
do 'dissoluto' impenitente. A laicizao do universo de Don Giovanni, a reintegrao dos temas essenciais da responsabilidade moral, da culpa e do castigo no horizonte 
existencial da pessoa humana acabam por constituir, portanto, um n central da revisitao saramaguiana do mito: "Esta cena", afirma o escritor referindo-se  primeira 
cena do seu texto teatral, "retoma o choque final entre o Comendador e Don Giovanni, quando este, na verso de Lorenzo da Ponte,  precipitado no inferno. Na nova 
verso, porm, no haver inferno algum onde cair. No mximo, uma pequena e ridcula chama que se extinguir de imediato..." (").
O esboo de O dissoluto absolvido que Saramago submete a Corghi antes de ter metido ombros ao trabalho prefigura amplamente a verso definitiva do texto teatral.

(11) Em francs no original. (N. do E.)

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No incipit do seu 'resumo' o escritor declara acolher a proposta - feita pelo msico - de um Prlogo centrado na dapontiana ria do catlogo', que ser recuperada 
em ambas as partes que a compem: a correspondente ao Allegro e a correspondente ao subsequente Andante con moto, na partitura de Mozart. E Saramago prev ainda 
a possibilidade - sempre no Prlogo - de a figura de Donna Elvira ser substituda por um "manequim feminino": o que  talvez um reflexo daquela problemtica do 'duplo' 
que constitui outro dos temas presentes na produo literria do escritor portugus (basta pensar no recente O Homem Duplicado), e que permitir, por sua vez, ao 
msico explorar o jogo de espelhos entre a figura de Donna Elvira e o 'manequim', para construir o seu prprio percurso dramtico.
No obstante dispor ainda somente daquilo que na pera italiana do sculo XIX era definido como la selva (designando o esboo do argumento) Corghi lana-se ao trabalho 
e comea a imaginar a grande arcada sobre a qual tenciona construir a arquitectura musical da pera, e que dever assentar em duas colunas: o Coro introdutrio e 
o conclusivo. A 7 de Maio comunica ao escritor:
"[...] tinha uma enorme necessidade de "palavras" para o Coro Introdutrio e para o Coro Final. Permiti-me cri-las parafraseando uma tua poesia: "Aprendamos o rito". 
O jogo que pretendo fazer, em lngua italiana,  entre "rito" e "mito" ou seja "apprendiamo il rito" contraposto a ildis-truggianto il mito" [destruamos o mito] 
[...] E depois ainda me vm  mente tantas outras coisas (como a especulao fontica sobre as palavras "dissoluto" e "assalto" [absolvido] ou o espelho entre interrogao? 
e exclamao!) que te envio em anexo. Diz-me se posso continuar assim...".

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Saramago reage com surpresa  proposta de re-empregar no Dissoluto outro dos seus textos poticos, distante daquele argumento delineado para a pera; ao contrrio, 
um tal procedimento  de todo em todo congenial ao msico, sempre propenso a ressuscitar numa composio outras ideias e materiais temticos, no raro plenos de 
aluses metafricas. "Parece-me bem o aproveitamento do poema "aprendamos o rito". Nunca imaginei que pudesse servir para este caso" (12), comenta o escritor na 
resposta de 10 de Maio. E exprime uma concepo linear da trajectria dramtica, que no pertence  sua inquieta escrita narrativa, retalhada por contnuas deslocaes 
dos planos temporais, mas que diferencia a sua abordagem do teatro declamado: "A minha maneira de trabalhar no me permitir dar "saltos" na aco dramtica. Preciso 
absolutamente de seguir o fio dos acontecimentos por considerar que cada situao ter forosamente de sair da anterior para encontrar o modo de entrar na seguinte. 
Peo-te portanto que tenhas pacincia. Antes de chegar  ltima fala no poderei dizer-te qual  a penltima." (13) Por seu lado, Corghi move-se segundo uma lgica 
compositiva diferente, ditada pela necessidade de "reconstruir o sentido [do texto dramtico] na articulao formal, lgica, discursiva, de um meio artstico - a 
msica - dotado de razes, faculdades e dificuldades prprias" (14): tende a elaborar uma viso de amplo alcance da estrutura global deste Acto nico e prope-se 
construir uma densa rede de relaes in-

(12) Em portugus no original. (N. do E.) 
(13) Em portugus no original. (N. do E.) 
(14) Lorenzo Bianconi (ed.), La drammaturgia musicale, Bologna, II Mulino, 1986, Introduzione, p. 26.

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ternas na pera, atravs da idealizao e da retomada de temas com relevncia simultaneamente musical e dramtica.
Saramago est agora em condies de avanar com a redaco do texto. De facto, a 11 de Maio envia o Prlogo, "um pouco mais longo do que eu previra, mas que, se 
me no engano, funciona bastante bem" (15), e dois dias depois a primeira cena, que considera "muito importante porque ser ela a dar o "tom" de todo o resto da 
intriga" (16).
Mal o texto de Saramago - passando pela traduo de Rita Desti - chega  sua escrivaninha, Corghi encontra a direco comum: "Saberei dizer-te rapidamente como "montarei" 
o Libreto definitivo, parte por parte", avisa a 14 de Maio. E  interessante a utilizao da ideia de 'montagem', que reaparece vrias vezes nas sucessivas cartas 
de Corghi. Com efeito, desde a Blimunda que o msico tem recorrido a processos de composio que apresentam indubitvel semelhana com as operaes usadas na arte 
cinematogrfica e lhe permitem criar uma pluralidade de perspectivas e correspondentes horizontes sonoros: a presena simultnea de mltiplas dimenses teatrais 
surge - com solues por vezes diferentes - em todas as composies de Corghi e parece constitutiva do seu modo de trabalhar, envolvendo todos os materiais postos 
em jogo no complexo hipertexto que  a pera.
A reflexo sobre o texto de Saramago determina importantes ajustamentos no desenrolar da composio. A 19 de Maio, Corghi informa o amigo das decises que vai amadurecendo:

(15) Em francs no original. (N. do E.) 
(16) Em portugus no original. (N. do E.)

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" medida que leio o teu libreto ganha corpo a ideia de que o Coro ser uma entidade abstracta, uma voz que comenta e que ironiza: no o Comendador!
"Visto que Leporello se identifica com o amo, ao ponto de roubar-lhe a Canzonetta, pensei que -- na segunda parte da sua ria - Leporello toque o bandolim (obviamente 
realizado pela orquestra, mas querendo... tambm podia ser ele a toc-lo). Dir-te-ei mais amanh.
"Ah! esquecia-me: pensei num "vento caluniador" (acompanhando o Coro Masculino) que traz consigo a ria "La Calunnia  un venticello" de Rossini.
"Pois bem, ser casual, mas: a ria de Leporello, a Canzonetta de 
Don Giovanni e a ria "da calnia" esto na mesma tonalidade (r maior). As vezes, as contas do certo!"
Muitos aspectos da composio esto, pois, terminados. Cada vez mais o Coro se configura, para Corghi, como "uma entidade abstracta, uma voz que comenta e que ironiza: 
no o Comendador!". Como j acontecera com os coros 'madrigalsticos' de Blimunda, Rinaldo, Tafjana, tambm neste caso o msico se cinge ao emprego do coro num espao 
'imaginrio' disposto "visivelmente fora do espao cnico com tcnicas e artifcios que o tornam estranho quele, o espao real" (17).

(17) Assim Corghi define na partitura de Blimunda o 'espao imaginrio', que se justape ao 'espao real', coincidente com o espao cnico tradicional do teatro 
de pera, e se intersecciona com um espao puramente 'acstico'. Enquanto no 'espao real' se desenrolam os eventos representados, o 'espao acstico' e o 'imaginrio' 
acolhem os sentimentos e os pensamentos que se manifestam nas personagens, fazendo assim reverberar sobre a dimenso da realidade cnica uma outra dimenso, onrica 
e fantstica.

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Assim, o compositor pensa em sobrepor ao Coro a citao de um fragmento da ria 'da calnia1 cantada pela personagem de Don Baslio no Barbeiro de Sevilha de Rossini: 
o recurso a uma das rias mais famosas da clebre pera rossiniana permite-lhe apelar para a memria musical dos ouvintes, predispondo-os desde o incio da pera 
a interpretar as vicissitudes de Don Giovanni como resultado de um acto de difamao, como consequncia de um implacvel embuste.
Por fim, Corghi pensa apresentar Leporello com o bandolim na mo e atribuir-lhe musicalmente (na segunda parte da sua ria) o acompanhamento da 'canzonetta que, 
no Don Giovanni,  cantada pelo protagonista  maneira de serenata, numa das suas tantas 'empresas' de sedutor; a inteno  a de reforar na percepo dos espectadores 
a ideia - sugerida tambm por Mozart na sua partitura - de que o servo se identifica plenamente com o amo num inconsciente processo de transferir, que tornar Leporello 
renitente em aceitar a transformao final de Don Giovanni, a sua 
profunda mudana interior.
A carta de Corghi, todavia, inquieta Saramago. Na imediata volta do correio (a poucas horas da missiva do msico) o escritor replica com apreenso. Manifesta o receio 
de que o prprio escrito teatral possa perder na partitura do compositor o seu 'sentido' originrio e reclama a necessidade de os dois 'textos' da pera - o literrio 
e o musical - manterem uma relao de coeso no plano dos significados fundamentais:
"Estou a trabalhar agora na Cena 4, que espero terminar amanh. O teu correio de hoje provocou-me uma certa perplexidade.  o facto de falares do Comendador como 
se ele fosse o coro, quando ele  uma verdadeira perso-

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nagem at ao fim da comdia. Comeo a pensar que o meu texto no "colar" quilo que tens em vista.  preciso que Rita Desti avance depressa na traduo (no  longo, 
no  complicado). S tens o Prlogo, e o Prlogo no  nada ao lado de tudo quanto vem depois. O meu texto  uma histria em que as personagens vivem os seus conflitos 
e as suas contradies. Ser que tudo isso ainda estar l quando terminares o teu trabalho? Compreendo bem que o texto existe para servir a msica, mas no deve 
ser reduzido a um pretexto.  preciso que possas ler toda a histria com urgncia, seno arriscamo-nos a cair numa situao insustentvel em que haver duas narrativas 
(a musical e a literria) que nada tero a ver uma com a outra. Confesso que estou muito inquieto." (18)
Ao reivindicar a plena autonomia e dignidade do 'seu' texto teatral, para alm do destino musical, Saramago pretende que se mantenha a fisionomia da prpria "histria 
em que as personagens vivem os seus conflitos e as suas contradies": quer continuar vinculado a uma teatralidade entendida como confronto, e choque, de individualidades 
concretas e claramente definidas e no considera aceitvel a 'despersonalizao' da figura do Comendador, que viesse a ser determinada pelo emprego do Coro. No dia 
seguinte, a 20 de Maio, Corghi tranquiliza o escritor. Na realidade o msico j tinha colhido no texto literrio esta exigncia de Saramago e procedido no sentido 
de separar o Coro da figura do Comendador:
"Foi mesmo isso que intu, caro Jos!
"Talvez no me tenha expressado claramente quando escrevi: " medida que leio o teu libreto ganha corpo a 

(18) Em francs no original. (N. do E.)

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ideia de que o Coro ser uma entidade abstracta, uma voz que comenta e que ironiza: no o Comendador!"
"Na verdade, o Comendador  uma personagem. O Coro far parte do "vento musical" que retoma fragmentos sonoros do texto (ou o sublinha ironicamente).
"Enfim, o Coro pode s comentar externamente: o teu Coro ser o formado por Elvira, Anna, Ottavio e Masetto, O meu - o das referncias musicais - ser o Coro masculino 
(que ficar muito bem fora de cena). Portanto, estamos perfeitamente de acordo. Envio-te esta noite o texto do Prlogo (montado para a msica).
Corghi reconduz expressamente a 'voz' do Coro masculino  sua prpria responsabilidade 'esttica': "O meu" coro, declara,  "o das referncias musicais", dadas pelas 
diversas 'citaes' introduzidas na partitura. Graas a estas invocaes, e aos significados que geram, este Coro assume uma funo dramatrgica fundamental e surge 
como presena metatextual, fazendo-se porta-voz da intruso divertida e dessacralizante do autor e determinando um desfasamento de perspectiva nos confrontos do 
desenvolvimento dramtico.
A personagem do Comendador o compositor dar voz de outro modo, ligando o seu Tema ao madrigal "A un dolce usignolo" de Adriano Banchieri, que faz parte da "commedia 
madrigalistic' llfestino della ser dei giovedi grasso avanti cena [A festa da noite de sexta-feira gorda antes da ceia]. J usado por Corghi na Rapsdia in Re(d) 
(1998), o tema quinhentista reveste do esprito 'carnavalesco' do Gargantua a burlesca desentronizao do poder que Saramago completa com o perfil irrisrio deste 
medocre representante dos valores dominantes: na sua imponente apario 
como "esttua de bronze" o Comendador

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 impotente para dar a sua prpria lio moral e punir com a maldio o 'libertino' culpado. De grande eficcia teatral  em particular a ideia saramaguiana dos 
"fogos-f-tuos do Comendador" (como os define Corghi numa carta subsequente de 24 de Junho), as chamas que deviam escancarar a Don Giovanni "as portas da morada 
do Demnio" e que se revelam clamorosamente insuficientes para desencadear os terrores escatolgicos suscitados na poca do cristianismo medieval (ao qual, e no 
por acaso, se reconduz a origem do mito de Don Giovanni) (19). Corghi restitu-los- musicalmente recorrendo a um dos topoi mais estafados da tradio melodramtica, 
o uso 'ameaador' dos Tmpanos e da Folha de Lato para a figurao sonora de eventos atmosfricos 'medonhos': o inferno evocado pelo Comendador transforma-se assim 
num jocoso 'espantalho cmico' (20), diante do qual Don Giovanni pode erguer-se com orgulho proclamando a sua prpria rebelio tica, afirmando a sua prpria condio 
de homem liberto dos sufocantes constrangimentos da boa conduta conformista e das convenes sociais, e capaz de incorporar os seus prprios princpios morais.
"Tranquilizaste-me, agradeo-te infinitamente" (21), escreve de imediato Saramago ao msico, que com os seus

(19) O nascimento do mito de Don Juan remonta a uma. pea teatral escrita em 1630, o Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra: assinando sob o pseudnimo de Tirso 
de Molina, o autor era o clrigo espanhol Gabriel Tellz, que nas suas obras dramticas prosseguia a finalidade de pregao em conformidade com o esprito da Contra-Reforma.
(20) Cfr. Mikhail Bakhtin, L'opera di Rabelais e la cultura popolare, Turim, Einaudi, 19792, p. 47.
(21) Em francs no original. (N. do E.)

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esclarecimentos soubera desfazer a sua perplexidade; tranquilizado, o escritor portugus trabalha a ritmo cerrado. "Trabalhei com alegria.  engraado, isto" (22), 
nota na mesma carta de 20 de Maio, e poucas horas depois -j noite avanada - pode anunciar a Corghi a concluso do seu trabalho com uma exaltao que se manifesta 
tambm no alegre jogo da rima: "Vitria, vitria, acabou-se a histria!" (23) O testemunho passa ento para o compositor, que pode intervir na verso italiana do 
texto teatral, fornecida em tempo por Rita Desti, para adequar a escrita de Saramago  sua prpria traduo dramtico-musical.
Numa das missivas do movimentado dia 20 de Maio, Corghi submete a Saramago "o libreto do Prlogo que montei e que amanh (50 pginas de partitura) entregarei ao 
editor. Espero que estejas de acordo". Saramago responde no dia seguinte, aprovando integralmente a operao conduzida pelo msico: "O "dissoluto" comea bem. Tu 
rompeste a ria do "catlogo" e isso pareceu-me muito boa ideia" (24), regista com gosto.
As 'roturas' da ria 'do catlogo' a que se refere o escritor so duplas. Por um lado, a ria de Leporello  distribuda entre o servo de Don Giovanni e o "manequim 
feminino que representa Donna Elvira" e  transformada numa espcie de dueto, adquirindo um ductus mais gil e rpido. Por outro lado,  introduzido o Coro masculino 
a quem  confiada a 'pronncia' do ttulo da pera, submetido a processos de desarticulao dos fonemas - com enfatizao dos -ss- sibilantes - que produzem 

(22) Em francs no original. (N. do E.) 
23) Em francs no original. {N. do E.) 
(24) Em francs no original. (N. do E.)

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efeitos de 'estranhamento'. Com a sua 'alteridade' de linguagem relativamente  das personagens, o coro age num plano teatral sobreposto ao plano propriamente cnico 
e contribui para a aco desmistificadora conduzida por Saramago quanto aos acontecimentos representados. Alm disso, o jogo de interrogaes e exclamaes com que 
Corghi restitui a pronncia de "II dissoluto assalto" insinua de imediato uma dimenso dubitativa: desvanece-se a ideia - no fundo tranquilizante - de que se vai 
assistir a uma mera reviravolta do 'mito' originrio, e a dplice verso do ttulo ("dissoluto  assolto? No,  punito! dissoluto  assolto! Non  punito?" ["O dissoluto 
 absolvido? No,  punido! O dissoluto  absolvido! No  punido?"] predispe a uma aproximao problematizante das peripcias que nos preparamos para seguir em 
cena.
Entretanto, a traduo integral do bellissimo Dissoluto (Rita Desti em carta de 14 de Junho) chega  mesa de trabalho de Corghi e o msico comunica-o a Saramago;
"Caro Jos, ontem  noite, a hora tardia, recebi a esplndida traduo do nosso "Dissoluto absolvido" feita pela Rita [...] mas s esta manh li rapidamente (de 
um flego) o teu texto. Percebi finalmente os "matizes" tal como a sua forma "musical" que vai das recorrncias s variaes temticas:  po para os meus dentes! 
Em certos pontos parece at que,  distncia, pensmos as mesmas coisas em conjunto, trocando de papis. De outras vezes disse para comigo que isso no era possvel, 
mas desta vez sucede qualquer coisa de novo que vai nessa direco.
"Obviamente enviar-te-ei a minha adaptao s exigncias do Libreto e dir-me-s se ests de acordo ou no."

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A 24 de Junho o msico pode transmitir ao escritor a primeira cena e anuncia-lhe ter feito diversos cortes no texto originrio, "devido sobretudo a exigncias de 
carcter rtmico-musical". Corghi continua a trabalhar simultaneamente no libreto e na msica: "Caro Jos, que trabalho imenso vou ter de enfrentar", confessa, "mas 
estou contente porque,  medida que componho, fica cada vez mais claro para mim o aspecto da forma musical."
As intervenes de Corghi sobre o texto literrio da primeira cena so relevantes. Alm dos cortes, que favorecem uma maior concentrao dramtica, o msico acentua, 
com repeties calculadas, situaes j presentes em Saramago: como o aviltamento parodstico da autoridade do Comendador, cuja entrada em cena - com a insistente 
afirmao "Aqui estou" -j no comporta qualquer das terrficas ressonncias ultraterrenas da figura mozartiana; ou como o tom cptico e amargo do protesto de Don 
Giovanni, cheio de raiva reprimida, na rplica do custico "virtuosos sois", assente no texto de Saramago. O Coro afirma, pois, plenamente a sua presena com inseres 
todas elas do punho do compositor: comenta com exclamaes sonoras e trocistas as vs tentativas do Comendador de condenar Don Giovanni ao fogo eterno; cita com 
o seu "Do Comendador aprendamos o rito" a poesia de Saramago {Aprendamos o rito), que Corghi j tinha referido ao escritor; declama em Sprechgesang a evocao de 
uma presena obscura, que condensa todas as coaces que oprimem e ameaam a dignidade da pessoa humana ("Comendador...  algo que no vedes, mas intus").
Nesta primeira cena, o compositor introduz o tema musical associado a Don Giovanni: a provenincia deste tema de cantos populares da Emilia Romagna - j re-

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cuperados no bailado dedicado a Mazapegul, o inquieto tontinho cujas travessuras amorosas so evocadas em tantas histrias rsticas - no  casual, antes tem profunda 
ressonncia no itinerrio existencial e no imaginrio artstico do msico. Precisamente graas  riqueza da cultura popular e das suas tradies musicais, Corghi 
conseguiu redescobrir no Gargantua o valor da palavra 'significante' e sair da aridez do estruturalismo, recuperando o sentido e a responsabilidade tica da 'comunicao'. 
A origem tnica dos dois cantos "de aboiar" que constituem o Tema de Don Giovanni combina-se, alm disso, com a raiz emiliana do compositor, com a partilha de uma 
cultura rural fundada na alegria da corporalidade, da fruio dos prazeres terrenos, na espontnea recusa de qualquer refgio na transcendncia.  uma viso do mundo 
que huma-nisticamente reivindica uma "nova seriedade audaz, livre e humana" (25) j celebrada por Corghi na revisitao de Rabelais e que o msico reconduz  figura 
do pai: a dedicatria de O dissoluto absolvido ao pai, falecido aos noventa anos, parece-lhe a melhor maneira de record-lo, bem mais adequada do que "um qualquer 
"requiem" em memria". "Ele amava a vida atravs da admirao da beleza", recorda o compositor, "e, tirando as consequncias desta releitura que humaniza o mito 
de Don Giovanni, achei finalmente as razes para uma dedicatria ad hoc."
"O prlogo e a cena primeira parecem-me excelentes. Est l o essencial das minhas propostas relativas s situaes e aos dilogos, a aco permanece fluida, por 
isso a

(25) Cfr. Mikhail Bakhtin, L'opera di Rabelais, cit., p. 18.

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minha satisfao  completa" (26), nota a 25 de Junho Saramago, que mostra assim o seu apreo pela capacidade do msico de encontrar o 'justo' ritmo dramtico - 
conciso e dinmico - e aprova os cortes, que no afectam "o essencial das minhas propostas relativas s situaes e aos dilogos" (27). Nesta carta, o escritor responde 
ainda a Corghi quanto  questo, que este colocara, da atribuio conjunta da autoria do libreto:
"Quanto ao ttulo, se no vs qualquer obstculo incontornvel, a minha preferncia vai para o "modelo" Blimunda, onde o libreto apareceu com duplo autor, isto , 
tu e eu. A tua generosidade quis ento dar-me um lugar ao teu lado, e tu  que tinhas feito todo o trabalho... Penso que a minha participao na tarefa que nos ocupa 
agora (o nosso "dissoluto" ) justifica, por motivos redobrados, a permanncia da dupla de autores do libreto. Eis, com toda a franqueza, como  hbito, a minha opinio." 
(28)
Saramago faz referncia s experincias teatrais precedentes em colaborao com Corghi, que constituem um caso particular de Literaturopern, isto , peras compostas 
directamente sobre textos literrios: nos frontispcios, seja de Blimunda, seja de Divara, os 'libretos' so atribudos a ambos os artistas, no reconhecimento do 
seu comum empenho de reflexo sobre a dimenso mais especificamente dramtico-musical das duas obras. No caso de O dissoluto absolvido - "o nosso "dissoluto"", reclama 
Saramago - a dupla assinatura do texto libretstico ("Libreto de Azio Corghi e Jos Saramago"  o que est es-

(2(6) Em francs no original. (N. do E.) 
(27) Em francs no original. (N, do E.) 
(28) Em francs no original. (N, do E.)

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crito na partitura) parece ainda mais justificada, pois tanto a verso teatral originria como a destinada  msica foram concebidas e elaboradas sob o impulso de 
um dilogo ininterrupto - simultaneamente artstico e humano - entre os dois responsveis pelo espectculo operstico.
Disso  testemunho, alis, a intensa troca de ideias que ocorre pouco depois, a 29 de Junho, outra jornada frentica no laborioso itinerrio da obra. Corghi transmite 
a Saramago a quinta cena, na qual trabalhara antecipadamente "para firmar a arcada temtica geral". O msico decidira antecipar o dilogo entre Masetto e Leporello, 
com que se conclui o texto teatral de Saramago, e coloc-lo "em simultaneidade com o encontro entre Don Giovanni e Zerlina" de tal modo que "o colapso da esttua 
do Comendador feche a pera". Esta "simultaneidade dos eventos que devem ocorrer no final (seduo, regresso de Masetto e Leporello, exploso da esttua)" leva-o 
a inserir, desde a primeira cena, "um "div da poca" na penumbra" e sobretudo a modificar a concluso programada pelo escritor. Se Saramago imaginava pr fim ao 
acto nico com a triste sada de cena de Masetto, Corghi concebe um final mais movimentado: "A esttua do Comendador explode em mil pedaos", l-se na ltima didasclia 
cnica, "Masetto foge amedrontado enquanto Leporello entra sorrateiramente, apanha o novo Catlogo e se prepara para escrever..." A reaco do escritor  imediata:
" bom e mau. Bom, porque isso funcionaria perfeitamente na lgica do que parece ser a tua interpretao do texto, mau porque a minha inteno, na hora de escrever, 
era completamente diferente.
"Na tua ideia, no fim, Masetto vai escrever no "novo catlogo" o nome de Zerlina. Mas esqueceste-te de que

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aquilo a que chamas "novo catlogo", isto , o livro de pginas brancas, foi queimado [...]. Tal "auto-de-f" significa que, para Don Giovanni, vai comear outra 
vida. Acabaram-se os catlogos com os nomes das mulheres. No lugar de Don Giovanni vai nascer Giovanni, outro homem, que o amor perdoou.  por isso que o "dissoluto" 
se tornou "absolvido". Na tua interpretao tudo vai continuar como dantes. No posso estar de acordo. Decidimos criar um novo Don Giovanni, e no uma reedio do 
Don Giovanni de toda a gente." (29)
Saramago alude  sua ideia pessoal da 'morte' de Don Giovanni, em torno da qual construiu a.pice:  uma morte simblica, que ocorre na profundidade da psique e 
que d lugar a um renascimento no sentido da libertao do peso do 'mito'.  lida neste sentido a supresso -- confiada a Zerlina - daquele ttulo de "Don" que o 
escritor interpreta como a verdadeira e prpria 'sigla' da imagem arquetpica do 'sedutor' e que Corghi trata musicalmente - por sugesto onomatopaica - com o dobre 
dos sinos tubulares, fazendo sua a inteno desmitificadora de Saramago. Transformado to-s em "Giovanni", o protagonista liberta-se do cone sobre o qual construiu 
a sua prpria identidade, agora pode ser simplesmente ele mesmo e abrir-se a uma autntica relao de amor.
Ciente da discordncia de Saramago, o msico replica prontamente, para precisar a sua posio:
"Tens razo, caro Jos, em pensar desse modo, sobretudo se aceitarmos o princpio de que pode iniciar-se outra vida para Don Giovanni. Mas eu imaginei que o Catlogo 
de Donna Elvira (o das pginas em branco)  com-

(29) Em francs no original. (N. do E.)

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pilado, desta vez, por Leporello (no por Masetto), que inconscientemente desejaria que o amo voltasse a ser o Don Giovanni de sempre.
"Talvez no tenha conseguido ser claro no meu propsito. No  Don Giovanni quem regista, no Catlogo de Elvira, a conquista de Zerlina,  Leporello quem finalmente 
- s por escrito - consegue substituir-se-lhe. A ideia de que Leporello admira as conquistas do amo (a ponto de ser obrigado pelo mesmo a usar as suas vestes) tornou-se 
um lugar-comum no campo da musicologia tradicional. Desejaria deixar uma margem de "dvida" ou, ao menos, de ambiguidade quanto a este ponto. Estaremos bem seguros 
de que um Don Giovanni pode "mudar de pele" definitivamente? [...] Se no estiveres de acordo, pode-se muito bem evitar o gesto de Leporello escrever o nome de Zerlina 
no catlogo e encontrar uma soluo diferente. Uma coisa, todavia, gostaria eu de saber de ti: que pensas da organizao formal da cena?
"Hoje repensarei o final com outras possibilidades, a fim de encontrar um ponto de convergncia."
Sem esperar pela resposta, o compositor modifica o final e decide regressar  primitiva ideia de Saramago: "Pensei", informa, "que se podia mudar o gesto final de 
Leporello retomando aquele que indicas na sexta Cena. Em vez de apanhar o "catlogo em branco" de Elvira - abandonado por Don Giovanni no cho - para escrever nele, 
Leporello apanha-o para o lanar nas chamas do fogo. [...] Seria como dizer: "agora o catlogo j no serve". Que dizes a isto?" O escritor toma conhecimento com 
alvio da 'correco' decidida por Corghi:
"Estou de acordo, sem reserva alguma, com o novo final. E creio mesmo que o acto de queimar o catlogo no

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fim da funo tornar mais clara a mudana psicolgica de Don Giovanni. Decerto, eu no apostaria, porm, que tal mudana fosse total... A meu ver, a ambiguidade 
podia ser salva se acrescentasses  frase final do coro masculino uma interrogao, qualquer coisa como isto: "Por quanto tempo?"  verdade que tenho muito empenho 
na ideia de que Don Giovanni viveu uma experincia nova para ele, mas bem sabemos at que ponto a carne  fraca... Quanto  organizao final da cena, uma s palavra: 
perfeita." (30)
A 30 de Junho, Corghi faz chegar a Saramago a verso corrigida dos "ltimos compassos do Libreto": "Aceitei a tua sugesto mas preferi pr na boca de Leporello (no 
do Coro) a dvida sobre quanto pode durar a absolvio." O msico pensa em concluir o acto nico com as palavras de Leporello, que - depois de ter lanado o "Catlogo 
abandonado no cho [...] para as chamas do fogo" - "talvez arrependido do gesto se interroga: "... quanto durar a absolvio?"". Todavia, na verso definitiva 
da ltima cena, enviada a Saramago a 23 de Agosto, antes da entrega da partitura, Corghi muda de ideias e prefere recorrer  "ideia surreal do manequim" para selar 
a concluso da pera. Enquanto - como dispe a didasclia cnica - "a esttua do Comendador se contorce e vacila, caindo, despedaada, ruidosamente", o crescendo 
e precipitando da orquestra para o Tema do Comendador em '"fortssimo' restitui o "estranho rumor de ferragem" que acompanha a queda do simulacro de bronze, e o 
Coro escande a absolvio de Don Giovanni ("// dissoluto  assolto") sobre um r repetido que parece o parodistico reverso das inflexveis 

(30) Em francs no original. (N. do E.)

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injunes da esttua mozartiana. Mas, entre as chamas do fogo, "aparece o manequim de Donna Elvira" que pronuncia - sobre o rossiniano Tema da calnia - os ltimos 
compassos do Dissoluto ("Assolto ma... per quanto tempo?"), a que o msico faz suceder o eco da canzonett de Don Giovanni e um instantneo (e acanonetado) aceno 
final ao Tema do Comendador. A "margem de "dvida" ou, ao menos, de ambiguidade" sobre a 'nova vida' de Don Giovanni, invocada por Corghi e aprovada por Saramago, 
 assim afirmada tambm musicalmente e torna 'aberto' o eplogo da pera, a lembrar que os fantasmas do passado podem voltar, que nenhuma libertao est completa 
para sempre.
Corghi confirma mais uma vez a sua extrordinria intuio dramatrgica:  justamente um fantasma do passado, o manequim de Donna Elvira, que o msico introduz tambm 
na quarta cena a declamar - "invisvel", como "voz que provm do fogo" - fragmentos textuais da ria "do catlogo", enquanto Don Giovanni e Leporello se afadigam 
desesperadamente  procura das provas perdidas das conquistas amorosas do 'libertino'. Naquela cena crucial a lgnea rigidez do manequim  uma figura simblica de 
morte, evocada pelo Tema que Corghi define 'do medo' (derivado de um canto fnebre popular siciliano), e vir a condensar todas as foras que contrastam com a infinita 
liberdade e mobilidade da vida, e a sufocam; fazendo-o reaparecer na ltima cena da pera, Corghi atribui ao manequim a advertncia sobre a frgil regenerao do 
protagonista e evidencia a respectiva funo metatextual, coerente com a concepo de teatralidade do compositor.
Mas, se esta soluo  aceite por Saramago, j a proposta - feita por Corghi na referida carta de 23 de Agosto - de confiar a uma nica intrprete todas as partes

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femininas de O dissoluto absolvido encontra a decidida oposio do escritor. Aps ter composto o Prlogo e as cenas fundamentais da pera - a primeira e a quinta 
- o compositor estava a trabalhar nas cenas intermdias. Decidira "inverter - para obter o mesmo resultado - as solues concretizadas em Divara. Naquela dizia-se: 
"gli uomini parlano, le donne cantano" ["os homens falam, as mulheres cantam"]. Aqui o exacto oposto: na verdade, sobre o fundo dos homens que cantam, existe apenas 
um "coro masculino"". "A certa altura", prossegue Corghi, "pensei: e se fosse uma s mulher, a falar por todas? Tendo  disposio uma grande actriz (que tambm 
possa cantar), no seria interessante realizar uma pea virtuosstica? Seria teatralmente divertido assistir s metamorfoses da mesma! [...]  claro que tive de 
levar em conta a dramaturgia do texto original e, particularmente, a cena quarta, o nico ponto em que esto presentes duas mulheres." O msico aventa a possibilidade 
de contornar tal obstculo suprimindo naquela cena a personagem de Donna Elvira e confiando as suas palavras a uma carta dirigida a Don Giovanni: "Se a mesma [carta] 
fosse lida por uma mulher, no faria qualquer sentido (uma mulher no pode dar voz suficiente  fria de outra mulher). Se, porm, um homem, o destinrio, ler em 
voz alta (no nosso caso, cantando) uma carta "intencionalmente destruidora" de uma mulher, ento a "parola scenica" ganha maior significado. E isso  o que tentarei 
fazer atravs da msica." Saramago rejeita resolutamente esta proposta, mais uma vez com base em motivaes de natureza artstica:
"A meu ver, essa carta faria cair a tenso dramtica. O espectador espera uma "grande cena" onde as duas amazonas, Donna Anna e Donna Elvira, tendo colocado

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entre parntesis a sua "rivalidade" (Donna Anna no suportaria a ideia de que Donna Elvira acabasse por se apoderar de Don Giovanni...), pem-se de acordo para o 
destruir. No meu texto, as mulheres, ambas (e no uma mulher e uma carta), so como harpias que se encarniam no corpo (ou no esprito) a sangrar do pobre diabo. 
 preciso que as mulheres - ambas - estejam l, para que a situao possa chegar a uma espcie de mise  mort.
"Por outro lado, o espectador sabe que Donna Elvira est l, por isso a sua ausncia feriria a lgica dramtica. Se se prope a execuo de um assassinato moral, 
os carrascos devem estar presentes, e os carrascos, meu caro Azio, so dois, Donna Anna e Donna Elvira, as irms gmeas unidas por uma vontade de vingana. O que 
elas no sabem  que essa vingana vai desfazer-se em migalhas pela mo de Zerlina. No  Don Giovanni quem, no final, triunfa sobre Donna Anna e Donna Elvira,  
Zerlina... Zerlina, na minha concepo da personagem, no  uma jovem estouvada que decidiu perder desse modo a virgindade porque Masetto  um imbecil. A um nvel 
completamente diferente, creio mesmo que Zerlina  um pouco Divara, um pouco Blimunda..." (31)
A recusa de Saramago  sem demora aceite por Corghi ("Seja como for, sabes que no andarei para a frente sem o teu consenso", tinha-lhe confirmado), que se convence 
das razes 'teatrais' do escritor. Por sua parte, Saramago aceita a insero metatextual de um Intermezzo, que  colocado antes da ltima cena de O dissoluto absolvido 
e que - de Gargantua a Tat'jana - representa uma constante estilstica da dramaturgia musical de Corghi. O Inter-

(31) Em francs no original. (N. do E.)

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mezzo  confiado somente ao coro masculino a cappella (sem suporte da orquestra) e reafirma a dupla perspectiva que o compositor quis conferir  concepo dramatrgica 
da pera. Se, por um lado, o Tema dito 'do pressentimento' - tambm ele radicado na tradio popular de Emilia Romagna e apresentado quase sempre em vivos movimentos 
de dana - prenuncia, com as suas mltiplas recorrncias ao longo de O dissoluto absolvido, o jubiloso resgate do protagonista, , por outro lado, a interveno 
coral do Intermezzo que pressagia o coup de thtre final, aps a aparente vitria dos inimigos de Don Giovanni ("Agora, sim, caste no inferno" - apostrofa-o o 
Comendador na concluso da quarta cena). Enquanto o texto, fornecido a Corghi, denuncia a crise de identidade de Don Giovanni perante o desaparecimento dos "nomes 
das suas belas" ("Quem s tu agora? / Tu no s uma esttua que fala, / mas um homem que cala"), a msica retoma o Tema de Zerlina que, em forma de berceuse,  empregado 
pelo msico desde a primeira cena como luminosa contraparte  'voz' do Comendador. Fazendo-se porta-voz da posio do compositor, o coro prenuncia assim a funo 
libertadora que Saramago, no seu trabalho teatral, atribui a Zerlina: como em Blimunda e como em Divara, tambm nesta pera - aparentemente centrada nos homens - 
cabe a uma mulher o gesto final que abre a dimenso da esperana e da utopia.
Obra de "teatro musical em um acto", como reza o frontispcio das Edies Ricordi, // dissoluto assolto representa ao mesmo tempo um momento de continuidade e de 
fractura no percurso artstico comum de Corghi e Saramago. Na sua produo musical Corghi deu espao  dimenso do divertimento e do jogo, tanto em obras tea-

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trais, como Rinaldo (1997) e Isabella (1998), como em composies camersticas, entre outras, This is the List (1996) ou a referida Rapsdia inRe(d) (1998); por 
sua vez, Saramago imprimiu a todos os seus escritos literrios a sua ironia trgica, ao mesmo tempo acutilante e desencantada. Todavia, a divertida parbola moral 
do Dissoluto introduz na arte de Corghi e Saramago uma 'ligeireza' nova, em que o cepticismo no impede o sorriso, e em que a severa reflexo sobre as misrias humanas 
no suprime a projeco para o futuro, o sonho de uma terra redimida pela poderosa fora de transformao atribuda s mulheres que habitam as suas obras.
Tambm no plano da escrita O dissoluto constitui para ambos os artistas uma ocasio para se defrontarem com novos desafios. Se Saramago se confronta com a dimenso 
ldica requerida pela teatralidade 'pura' de uma trama construda a partir do dramma giocoso de Mozart e da Ponte, Corghi resiste  complexidade lingustica e estrutural 
que marca as suas vastas paisagens sonoras e que nos seus momentos de extrema abstraco trai a impresso indelvel dos princpios estruturalistas.  como se o imenso 
material musical precedente e o indiscutvel ofcio do compositor funcionassem nesta pera como hmus fecundo e, no entanto, oculto, conduzindo-o a uma nova transparncia 
da escrita, que  um legado dos "clssicos".

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